šŸŒ SƉRIE: A ARQUITETURA QUE ENCONTREI PELO MUNDO | CAPƍTULO 7: FUNDATION LOUIS VUITTON | PARIS

 

šŸ‡«šŸ‡· PARIS: QUANDO A ARQUITETURA ENCONTRA O MOVIMENTO

Fondation Louis Vuitton Arquitetura de Frank Gehry

Exposição de Alexander Calder

HĆ” arquiteturas que admiramos. E hĆ” arquiteturas que nos integram quando paramos para admira-la.

Paris sempre provoca essa sensação de descoberta, mesmo que faça vÔrias visitas, a cidade continua apresentando novos lugares, novas arquiteturas e novas possibilidades de olhar, e foi assim quando cheguei à Fondation Louis Vuitton, no Bois de Boulogne. Uma arquitetura que conquista a atenção antes mesmo de adentrar seus espaços, despertando aquela sensação tão particular que nós, arquitetos, conhecemos bem: a vontade de observar, percorrer, descobrir e compreender como aquele edifício foi pensado, como foi desenhado e tantos detalhes e minucias puderam ser pensados.

UMA ARQUITETURA QUE PARECE ESTAR EM MOVIMENTO

Projetada pelo arquiteto Frank Gehry e inaugurada em 2014, a Fondation Louis Vuitton Ć© uma das obras contemporĆ¢neas mais marcantes de Paris, um Ć­cone da Arquietura Desconstrutivista mundial, com suas formas fluidas, esculturais e fragmentadas. De longe, o edifĆ­cio parece quase uma grande embarcação pousada entre as Ć”rvores do Bois de Boulogne, suas grandes estruturas de vidro se abrem em diferentes direƧƵes, como velas infladas pelo vento, enquanto, por trĆ”s delas, aparecem os volumes brancos que parecem grandes blocos ou esculturas independentes. Sobre esses volumes apoiam-se as enormes “velas” de vidro, criando uma segunda camada para a arquitetura, e Ć© justamente essa sobreposição entre os volumes, as estruturas, a transparĆŖncia e a paisagem que torna o edifĆ­cio tĆ£o diferente e interessante. O estilo desconstrutivista rejeita a simetria e as linhas rĆ­gidas tradicionais. Gehry usou sistemas estruturais mistos de madeira laminada cruzada, aƧo e vidro para criar volumes complexos e imprevisĆ­veis.

FORMAS FLUIDAS EM VIDRO, AƇO, MADEIRA, LUZ E PAISAGEM SE ENCONTREAM.

As doze grandes velas de vidro envolvem os volumes internos e produzem uma arquitetura que parece diferente a cada momento do dia. Quando o cĆ©u se altera, a percepção do edifĆ­cio tambĆ©m muda; o vidro reflete as Ć”rvores, o cĆ©u e a própria arquitetura, criando imagens que se transformam conforme caminhamos. NĆ£o existe uma Ćŗnica fachada, e isso Ć© fascinante, porque nos aproximamos, nos afastamos, mudamos de direção e percebemos novas relaƧƵes entre os elementos. Que arquitetura fascinante! Ɖ uma arquitetura a ser percorrida, descoberta aos poucos, em que cada novo Ć¢ngulo revela uma composição diferente.

A ARQUITETURA COMO EXPERIÊNCIA

Uma das caracterĆ­sticas de destaque na arquitetura de Gehry Ć© justamente a capacidade de criar edifĆ­cios que nĆ£o sĆ£o compreendidos apenas pela observação de uma fachada. Ɖ preciso caminhar, percorrer, mudar de posição e observar como a arquitetura se transforma diante dos nossos olhos; o percurso faz parte do projeto e o visitante participa dessa descoberta.

Na Fondation Louis Vuitton, passarelas, terraços e espaços de circulação permitem diferentes aproximações ao edifício. Em alguns momentos estamos diante das grandes superfícies de vidro; em outros, encontramos os volumes brancos e, logo depois, a paisagem volta a aparecer. A iluminação e os jogos de luz também participam dessa experiência, criando diferentes atmosferas e reforçando a sensação de que o edifício nunca é exatamente o mesmo. A arquitetura vai se revelando aos poucos, e ao caminhar participamos dessa descoberta. A cada passo, uma nova imagem.

Gehry tambĆ©m trabalha magistralmente com a relação entre arquitetura e paisagem. Inserida no Bois de Boulogne, junto ao Jardin d’Acclimatation, a Fondation nĆ£o ignora o parque, pelo contrĆ”rio, estabelece com ele uma relação constante. As Ć”rvores aparecem atravĆ©s dos vidros, sĆ£o refletidas nas superfĆ­cies e passam a fazer parte da própria percepção do edifĆ­cio. Em alguns momentos, fica difĆ­cil separar o que Ć© arquitetura e o que Ć© reflexo da paisagem, como se o edifĆ­cio estivesse sempre dialogando com o lugar. Essa conexĆ£o entre espaƧo interno, espaƧo externo e entorno Ć© encantadora e faz com que a experiĆŖncia da arquitetura ultrapasse os limites do próprio edifĆ­cio.

ENTRE A LEVEZA E A COMPLEXIDADE

Na arquitetura de Gehry, as grandes velas de vidro transmitem leveza e parecem quase flutuar, como um barco futurista, mas sabemos que, para alcanƧar esse resultado, foi necessĆ”rio desenvolver uma estrutura extremamente complexa e precisa. A delicadeza que percebemos Ć© consequĆŖncia de muita tecnologia e engenharia, e essa Ć© uma caracterĆ­stica muito interessante de sua arquitetura: transformar uma estrutura altamente complexa em algo que, para quem observa, parece espontĆ¢neo, como se as formas simplesmente tivessem surgido daquele movimento, como se o vento tivesse passado por ali e deixado sua marca.  Outro destaque tambĆ©m Ć© que a estrutura conta com um sistema de captação de Ć”guas pluviais para irrigação e foi desenhada para maximizar a ventilação e a iluminação naturais.

DENTRO DA ARQUITETURA, O MOVIMENTO CONTINUOU

E percorrendo a Fondation, descobri que o movimento continuava, mas agora ele estava nas obras de Alexander Calder

A exposição de Calder ocupava os espaços da Fondation e apresentava uma retrospectiva de grande dimensão, reunindo obras de diferentes momentos da trajetória do artista. Distribuída por quatro andares, a mostra proporcionava um verdadeiro percurso pela obra de Calder, permitindo acompanhar suas experiências com a escultura, o desenho, a pintura, os mobiles e os stabiles, além de perceber como suas pesquisas sobre forma, equilíbrio, espaço e movimento foram se transformando ao longo do tempo.

    

Quatro andares para percorrer, observar e descobrir Calder. E que curadoria magnífica! As obras estavam organizadas de maneira a construir uma narrativa, estabelecendo relações entre diferentes períodos e linguagens e, ao mesmo tempo, criando diÔlogos com outros artistas e referências importantes para compreender o universo de Calder. A exposição não apresentava apenas um artista, mas um contexto artístico inteiro, e isso agregou muito à experiência da visita.

CALDER E O MOVIMENTO

Alexander Calder desenvolveu uma maneira completamente particular de pensar a escultura. Quando pensamos em escultura, muitas vezes imaginamos algo pesado, estÔtico e permanente, mas Calder mudou essa percepção ao introduzir o movimento como parte da própria obra. Seus famosos mobiles são estruturas delicadas, suspensas, compostas por formas que se equilibram e se movimentam lentamente, criando configurações que nunca permanecem exatamente iguais.

Uma pequena mudanƧa no ar, uma mudanƧa na posição do observador ou uma nova configuração das formas Ć© suficiente para transformar a percepção da obra. Ɖ fascinante perceber como Calder conseguiu transformar algo tĆ£o simples quanto o movimento do ar em parte da experiĆŖncia artĆ­stica. A escultura deixa de ser apenas um objeto e passa a ser uma experiĆŖncia que acontece no espaƧo e no tempo.

 

O ESPAƇO TAMBƉM FAZ PARTE DA OBRA

Ɖ justamente por isso que a obra de Calder encontra a arquitetura de uma maneira tĆ£o especial. Seus trabalhos precisam do espaƧo para existir; nĆ£o estĆ£o simplesmente apoiados sobre uma base, mas ocupam o espaƧo, flutuam, criam vazios, projetam sombras, estabelecem relaƧƵes com a luz e mudam conforme caminhamos.

Foi impossível não pensar na arquitetura enquanto percorria a exposição. Na Villa Savoye, Le Corbusier me fez perceber a arquitetura através do percurso; aqui, Calder fazia algo parecido através da arte. A obra também precisava ser percorrida, observada de diferentes ângulos e contemplada com tempo, porque sua percepção se modifica conforme nos movimentamos ao redor dela.

UMA EXPOSIƇƃO QUE DIALOGA COM A ARQUITETURA

Gehry trabalha com volumes, superfícies, estruturas, transparências e movimento visual; Calder trabalha com planos, formas, equilíbrio e movimento real. Um desenha o espaço através da arquitetura, o outro desenha o espaço através da escultura, e o mais interessante é perceber como essas duas linguagens se encontram dentro da Fondation Louis Vuitton.

    

Em alguns momentos, eu olhava para uma obra; em outros, olhava para a arquitetura e, muitas vezes, não sabia exatamente onde terminava uma e começava a outra. Os grandes espaços permitiam que as esculturas respirassem, enquanto os vazios da arquitetura valorizavam os vazios das obras. Era como se Gehry tivesse criado uma arquitetura capaz de receber o movimento de Calder e, ao mesmo tempo, Calder acrescentasse ainda mais movimento à arquitetura.

AS INSPIRAƇƕES E OS DIƁLOGOS

Uma das coisas que mais enriqueceram a exposição foi justamente perceber que Calder não estava apresentado de forma isolada. A curadoria estabelecia diÔlogos com outros grandes nomes da arte moderna e das vanguardas, mostrando artistas e referências que ajudam a compreender o ambiente artístico no qual Calder desenvolveu sua linguagem. Entre essas referências estavam Joan Miró e Wassily Kandinsky, além de outros artistas ligados às experiências da abstração e das vanguardas. E isso fez toda a diferença, porque, ao caminhar pela exposição, era possível perceber aproximações entre diferentes maneiras de pensar a forma, a cor, a linha, o espaço e a própria percepção.

Em Kandinsky, a cor e a forma ganham uma dimensão quase musical; em Miró, linhas, formas e cores parecem flutuar livremente, criando um universo imaginÔrio. Calder, por sua vez, leva essa investigação para outra dimensão: tira a forma da superfície e a coloca no espaço, acrescentando a ela o movimento real.


Foi muito interessante perceber essas conexões dentro da própria exposição. De repente, aquilo que poderia parecer apenas uma sucessão de obras se transformava em uma história de encontros, influências, experimentações e descobertas. Não estÔvamos apenas conhecendo Calder, mas entrando em um universo artístico muito maior, no qual ideias circulavam, artistas se encontravam e novas possibilidades surgiam. Uma das grandes qualidades de uma boa curadoria: ela não entrega apenas respostas, mas cria conexões e nos faz olhar novamente para aquilo que jÔ conhecíamos.

CALDER E A ARTE CINƉTICA

O trabalho de Calder foi fundamental para ampliar as possibilidades da escultura e ocupa um lugar importante na história da arte cinética. Mas o que mais me chamou a atenção foi perceber que o movimento, para ele, não era apenas um efeito, mas uma maneira de pensar. Peso, equilíbrio, gravidade, tempo, espaço e luz participam de sua obra, criando uma experiência que nunca se repete exatamente da mesma maneira.

Ao observar um mobile se movimentando lentamente, percebemos que estamos diante de uma obra que acontece no tempo. E o tempo tambƩm passa a fazer parte da escultura.

QUATRO ANDARES DE DESCOBERTAS

Percorrer a exposição foi uma experiência que foi muito além de observar obras de arte. A cada andar surgiam novas possibilidades, novas formas, novos movimentos e novas relações com a arquitetura, e quanto mais eu caminhava, mais percebia que a exposição havia sido pensada para dialogar com o próprio edifício.

Os mobiles pareciam encontrar seu lugar natural naquele espaƧo, as grandes salas permitiam que as obras respirassem, os vazios da arquitetura valorizavam os vazios das esculturas e o movimento das obras respondia ao movimento do visitante. Foi uma daquelas exposiƧƵes em que temos vontade de ficar mais tempo, olhar novamente, voltar para uma sala e perceber um detalhe que havia passado despercebido.

ARTE, ARQUITETURA E EXPERIÊNCIA

Como arquiteta, gosto especialmente quando uma exposição me faz pensar sobre o próprio espaço. Foi exatamente o que aconteceu ali, a Fondation Louis Vuitton não era apenas o edifício que recebia a exposição; ela fazia parte dela, e Calder, por sua vez, parecia ampliar a arquitetura.

Se Gehry criou uma arquitetura que transmite movimento, Calder criou obras que realmente se movimentam dentro dela.

Que encontro!
ARQUITETURA E ARTE CONVERSANDO ATRAVƉS DO ESPAƇO.

E isso é maravilhoso, não apenas conhecer lugares, mas encontrar relações inesperadas. Uma arquitetura que me faz pensar em movimento, um artista que transforma movimento em arte e uma exposição que coloca os dois frente a frente.

QUANDO A ARQUITETURA E A ARTE SE ENCONTRAM

Ao sair da Fondation Louis Vuitton, fiquei pensando naquela primeira impressão que tive antes mesmo de entrar. O edifício parecia estar em movimento, e dentro dele, encontrei Calder e descobri que o movimento estava por toda parte: na arquitetura, nas esculturas, na luz, no percurso e no olhar. E isso que uma arquitetura pode proporcionar: fazer com que continuemos pensando nela mesmo depois de deixÔ-la, expericiar!

Assim como algumas obras de arte,  a Fondation Louis Vuitton, a arquitetura extraordinĆ”ria de Frank Gehry, fez um encontro com a obra de Alexander Calder, em uma exposição distribuĆ­da por quatro andares, com uma curadoria magnĆ­fica e inĆŗmeras conexƵes estabelecidas entre Calder e outros artistas fundamentais da arte moderna.

HƁ ARQUITETURAS QUE ABRIGAM A ARTE, E HƁ ARQUITETURAS QUE SƃO VERDADEIRAS OBRAS DE ARTE, E AS INTEGRAM AO SEU ESPAƇO.

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šŸŒA ARQUITETURA QUE ENCONTREI PELO MUNDO

Este texto integra a sĆ©rie A Arquitetura que Encontrei pelo Mundo, um conjunto de reflexƵes sobre cidades, edifĆ­cios, arte, paisagens e experiĆŖncias observadas durante minhas viagens. Em cada capĆ­tulo, o percurso continua revelando diferentes formas de compreender a arquitetura, a cultura, a memória, a paisagem e a identidade dos lugares.

Marcilene Iervolino é Arquiteta e Urbanista, Doutoranda pela FAU-USP, Mestre em Políticas Públicas, MBA em Neurociência Aplicada à Arquitetura, Especialista em Arquitetura de Interiores, Meio Ambiente e História do Brasil, e docente nos cursos de Arquitetura e Urbanismo.

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