🌍 A Arquitetura que Encontrei pelo Mundo. Capitulo 5: Villa Savoye

 

Villa Savoye: quando a arquitetura se transforma em experiência. Poissy, França

Existem obras de arquitetura que conhecemos primeiro através dos livros, das fotografias e dos desenhos técnicos. Durante anos, estudamos seus conceitos, analisamos suas plantas e observamos suas fachadas. Mas existe uma diferença enorme entre conhecer uma obra e estar diante dela. Foi assim com a Villa Savoye, em Poissy, França. 

Projetada por Le Corbusier, em colaboração com seu primo Pierre Jeanneret, entre 1928 e 1931, a residência tornou-se uma das obras mais emblemáticas da arquitetura moderna e uma síntese das ideias que transformaram a maneira de pensar a habitação no século XX. Quando estive ali, a sensação foi diferente daquela proporcionada pelos livros. A Villa Savoye deixou de ser um desenho conhecido e passou a ser um espaço para percorrer, observar e sentir.


UMA CASA QUE MUDOU A MANEIRA DE MORAR

Construída para a família Savoye como uma casa de campo, a residência está implantada em meio a uma área verde, afastada do tecido urbano de Paris. Sua aparência inicialmente simples, um volume branco elevado sobre pilotis esconde uma concepção espacial extremamente elaborada.

Le Corbusier organizou o projeto a partir de princípios que ficaram conhecidos como os Cinco Pontos da Nova Arquitetura: os pilotis, a planta livre, a fachada livre, a janela em fita e o terraço-jardim.

A janelas em fita de Le Corbusier, 2026. Acervo de Marcilene R S Iervolino

Esses princípios representavam uma nova maneira de pensar a arquitetura, a casa manifesto do modernismo. A estrutura independente permitia libertar as paredes internas e as fachadas, enquanto as grandes janelas horizontais ampliavam a relação entre os ambientes e a paisagem.

Na Villa Savoye, esses conceitos podem ser percebidos não apenas visualmente, mas principalmente durante o percurso.

A iconica escada helicoidal de Le Corbusier, 2026. Acervo de Marcilene R S Iervolino

A ARQUITETURA COMO PROMENADE

Talvez uma das experiências mais marcantes seja justamente o movimento dentro da casa. Le Corbusier utilizou a ideia da promenade architecturale, o passeio arquitetônico, para construir uma sequência espacial na qual o visitante descobre a casa gradualmente.

A entrada conduz ao interior e, a partir dali, rampas e percursos conectam diferentes níveis. A arquitetura não é apresentada de uma única vez. Ela é revelada aos poucos, conforme caminhamos. A rampa assume papel fundamental nesse percurso. Ao subir, a paisagem muda. Os enquadramentos se transformam. A luz entra de diferentes maneiras. O espaço anteriormente conhecido passa a ser percebido sob outro ponto de vista. É nesse momento que compreendemos que a arquitetura pode ser experimentada quase como uma narrativa. Cada movimento revela uma nova cena.

                   Acesso a Villa Savoye, 2026. Acervo de Marcilene R S Iervolino

A CASA E A PAISAGEM

Outro aspecto de grande destaque é a relação entre a residência e o seu entorno. A Villa Savoye não foi pensada simplesmente como um objeto colocado sobre o terreno. A casa estabelece uma relação visual contínua com a paisagem. As janelas em fita permitem que o horizonte acompanhe os ambientes, enquanto o terraço-jardim devolve à cobertura parte da área ocupada pela construção. O terraço também amplia a experiência da casa. Ao chegar aos espaços externos superiores, percebemos que a arquitetura passa a funcionar como uma espécie de moldura para a paisagem. A natureza deixa de estar apenas ao redor da residência e passa a participar da experiência arquitetônica.

O verde emoldurado pelas janelas adentram os ambientes, 2026. Acervo de Marcilene R S Iervolino

 A casa é um manifesto do modernismo, 2026. Acervo de Marcilene R S Iervolino

CASA MANIFESTO

À primeira vista, a Villa Savoye pode parecer extremamente simples.

Um volume branco.

Linhas horizontais.

Pilotis.

Aberturas.

Curvas.

Mas, ao percorrê-la, percebemos que sua simplicidade é resultado de uma complexa organização espacial. A casa trabalha com contrastes: cheio e vazio, luz e sombra, horizontalidade e movimento vertical, interior e exterior. A famosa forma branca da residência é apenas a parte mais visível de uma arquitetura construída a partir do percurso.

                              Villa Savoye, 2026. Acervo de Marcilene R S Iervolino

ESTAR DIANTE DE UMA OBRA QUE ESTUDAMOS

E visitar a Villa Savoye ainda tem outro significado, como arquiteta, muitas obras fazem parte da nossa formação antes mesmo de conhecê-las pessoalmente. Estudamos seus desenhos, analisamos fotografias e ouvimos falar sobre elas durante a faculdade. Por isso, caminhar por uma obra como essa produz uma sensação quase de reencontro.

A planta que conhecíamos ganha escala.

O desenho da fachada ganha profundidade.

A rampa deixa de ser uma linha no papel.

A luz que aparece nas fotografias passa a mudar diante dos nossos olhos.

E percebemos que existem aspectos da arquitetura que simplesmente não podem ser completamente compreendidos através de uma imagem.

É preciso estar lá.

É preciso caminhar.

É preciso olhar.

                           Villa Savoye, 2026. Acervo de Marcilene R S Iervolino

Estar na Villa Savoye reforçou uma convicção que acompanha meu trabalho: a arquitetura não pode ser compreendida apenas pelo desenho técnicoProjetar é organizar espaços, percursos, luz, escala e relações. Mas experimentar arquitetura é perceber como todas essas decisões se transformam quando o corpo entra no espaço. A Villa Savoye continua atual justamente porque não é apenas um ícone da arquitetura moderna. Ela permanece como uma experiência espacial capaz de provocar reflexão quase um século depois de sua construção.

                             Villa Savoye, 2026. Acervo de Marcilene R S Iervolino

Ao deixar Poissy, fiquei com a sensação de que algumas obras não envelhecem porque suas ideias continuam nos fazendo perguntas. E talvez essa seja uma das maiores forças da arquitetura.

Algumas obras nós estudamos. Outras, quando podemos percorrê-las, nos ensinam novamente a olhar.

🌍A ARQUITETURA QUE ENCONTREI PELO MUNDO

Este texto integra a série A Arquitetura que encontrei pelo Mundo, um conjunto de reflexões sobre cidades, edifícios e paisagens observados durante minha viagens.
Em outros capítulos, o percurso segue por Mykonos, Santorini, Lisboa, Recife, Paraty, Diamantina e outros destinos, explorando diferentes formas de compreender a arquitetura, a cultura, a paisagem e a identidade dos lugares.

Marcilene Iervolino é Arquiteta e Urbanista, Doutoranda pela FAU-USP, Mestre em Políticas Públicas, MBA em Neurociência Aplicada à Arquitetura, Especialista em Arquitetura de Interiores, Meio Ambiente e História do Brasil (UEVA), e docente nos cursos de Arquitetura e Urbanismo.


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