šŸŒ SƉRIE: A ARQUITETURA QUE ENCONTREI PELO MUNDO | CAPƍTULO 6: BUDAPEST | HUNGRIA

 BUDAPESTE šŸ‡­šŸ‡ŗ, ENTRE O DANUBIO, A MEMORIA E ARQUITETURA

Chegar a Budapeste na Hungria, foi, desde os primeiros momentos, uma experiência marcada por bons contrastes. A cidade nos apresentava uma combinação muito particular entre construções históricas, arquitetura clÔssica e edifícios modernos, especialmente aqueles surgidos no período pós guerra, uma cidade reconstruida. Havia algo fascinante nessa convivência de diferentes épocas: o antigo não parecia simplesmente separado do novo, mas integrado a uma paisagem urbana complexa, na qual diferentes momentos da história permaneciam visíveis. Caminhar por Budapeste significava, quase sempre, observar mais de uma época ao mesmo tempo. A acessibilidade é encantadora, o cuidado em quase não haver desníveis é belíssimo, calçadas, canteiros, ruas, trilhos, tudo parece estar em um unico plano, o que nos convida a caminhar, vivenciar aqueles espaços.

                                   PraƧa em Budapest, 2026. Acervo MRS Iervolino

A VISTA DA JANELA

A primeira visĆ£o da janela do hotel, vendo a cidade acontecer Ć© muito encantadora, a PraƧa KĆ”lvin trazia diferentes arquietturas, ao longe, era possĆ­vel perceber um templo de 1816 neoclĆ”ssico, ligado Ć  tradição Calvinista,  na outra esquina, em contraste, dois edifĆ­cios contemporĆ¢neos, em estrutura metĆ”lica e grandes superfĆ­cies de vidro, um era o KĆØlvin Square e o outro Erste Bank, alĆ©m de outro tambĆ©m neoclĆ”ssico o Alfa Vienna Biztositó. Entre eles, os bondes passavam pelas ruas, acrescentando movimento Ć  paisagem e reforƧando aquela sensação de que diferentes tempos conviviam naturalmente diante dos nossos olhos. Era quase uma sĆ­ntese da cidade que comeƧƔvamos a descobrir. NĆ£o era necessĆ”rio chegar a um grande monumento para perceber sua arquitetura: bastava olhar pela janela.

                                      PraƧa KĆ”lvin em Budapest,2026.  Acervo MRS Iervolino

O DANUBIO E A CIDADE

Vislumbrar a cidade atravĆ©s do rio, em um pequeno cruzeiro, vimos que o Danubio nĆ£o Ć© apenas um elemento da paisagem, ele estrutura a própria cidade e estabelece uma relação muito particular entre Budai e Peste,   a cidade parecia se revelar de outra maneira. Vista a partir da Ć”gua, a arquitetura ganhava escala e os edifĆ­cios que havĆ­amos observado pelas ruas passavam a fazer parte de uma composição urbana muito mais ampla. Entre os principais pontos do percurso estava o Parlamento HĆŗngaro, onde sua monumentalidade se torna ainda mais impressionante quando observada Ć s margens do rio. 

Passando também pelo House of Music Hungary, um edifício contemporâneo que se destaca pela arquitetura e pela relação que estabelece com a vegetação ao redor, sua cobertura longilinea e curva, meio futurista parece flutuar entre as Ôrvores, criando uma presença bastante diferente daquela dos edifícios históricos que dominam boa parte da paisagem de Budapeste. Essa convivência entre arquiteturas de épocas tão distintas é uma das caracteristicas que define estar nesta cidade.

Parlamento Hungaro, 2026. Acervo de MRS Iervolino
 Parlamento Hungaro, 2026. Acervo de MRS Iervolino

Caminhando pelas margens do Danúbio, uma das ruas próximas ao rio estava fechada ao trânsito e o espaço havia sido ocupado pelas pessoas, um momento de lazer na grande cidade. Muitas atividades acontecendo, grupos reunidos, bandas de rock, recital de poesias, músicas de todos os tipos e um movimento diferente do habitual, criando uma atmosfera bastante descontraída. Foi interessante perceber como aquele trecho da cidade podia se transformar temporariamente em um grande espaço de convivência, onde as pessoas caminhavam, se encontravam e participavam das atividades, os verdadeiros espaços de fruição, tudo acontecendo ao longo das margens do Rio Danubio.

                Ruas de lazer, a cidade acontecendo.2026. Acervo de MRS Iervolino
   Margem do Rio Danubio, Ponte das Correntes, 2026. Acervo de MRS Iervolino
  Ponte da Liberdade (SzabadsĆ”g hĆ­d ) ,2026. Acervo MRS Iervolino  

MEMƓRIA AS MARGENS DO DANUBIO

Neste percurso pelas margens do rio, encontramos tambĆ©m um lugar que me fez interromper a caminhada e olhar para a cidade de outra maneira: o Memorial dos Sapatos Ć s Margens do DanĆŗbio. Criado em memória dos judeus mortos durante a Segunda Guerra Mundial, o memorial Ć© formado por dezenas de pares de sapatos de ferro dispostos junto ao rio. A simplicidade da representação Ć© justamente o que torna o lugar tĆ£o impactante. Ali, o DanĆŗbio, que atĆ© entĆ£o havĆ­amos experimentado como paisagem, como eixo urbano e como elemento de conexĆ£o entre Buda e Peste, assumia outra dimensĆ£o. A beleza da cidade permanecia ao redor, mas aquele memorial nos lembrava que os mesmos lugares que hoje admiramos tambĆ©m foram palco de acontecimentos dolorosos de sua história. Um lugar silĆŖncio e reflexĆ£o, o memorial mostra como a memória pode ocupar o espaƧo urbano de maneira delicada, sem competir com a paisagem, mas estabelecendo uma relação direta entre o lugar e aquilo que ele representa. Essa presenƧa da memória no espaƧo pĆŗblico tambĆ©m nos faz pensar sobre o papel da cidade em preservar nĆ£o apenas seus edifĆ­cios e monumentos, mas tambĆ©m as histórias que nĆ£o podem ser esquecidas.

Memorial dos sapatos a beira do Danubio, um momento de reflexĆ£o e sensibilidade,2026.                                                               Acervo MRS Iervolino
CAMINHANDO PELO CENTRO HUNGARO

Observando as ruas, as fachadas, o movimento das pessoas e a vida cotidiana da cidade. Entre uma descoberta e outra, encontramos um lugar que jĆ” faz parte dos meus pequenos rituais de viagem: o Hard Rock Cafe. Sempre que viajo e existe um Hard Rock na cidade, gosto de conhecer. Ɖ quase uma brincadeira que acabou se transformando em uma espĆ©cie de coleção de memórias das cidades por onde passo. Em Budapeste nĆ£o seria diferente, entrar ali foi fazer uma pequena pausa no percurso e, ao mesmo tempo, reconhecer algo familiar em uma cidade completamente nova. Talvez esses pequenos rituais sejam justamente uma das maneiras de criar vĆ­nculos entre diferentes viagens: cada cidade tem sua própria identidade, mas alguns elementos acabam acompanhando nossa trajetória.

GREAT MARKET HALL - NagyvƔsƔrcsarnok MERCADO CENTRAL, ARQUITETURA E VIDA COTIDIANA

Um grande destaque, o mercado central, š†š«šžššš­ šŒššš«š¤šžš­ š‡ššš„š„ (NagyvĆ”sĆ”rcsarnok), inaugurado em 1897, Ć© uma das maiores expressƵes da arquitetura do ferro em šš®šššš©šžš¬š­e. Sua monumental estrutura metĆ”lica, combinada Ć s amplas superfĆ­cies envidraƧadas, permitiu criar um grande espaƧo, iluminado e funcional, um marco da arquitetura do final do sĆ©culo XIX. O edifĆ­cio revela como o ferro revolucionou a arquitetura, com inovação estrutural, estĆ©tica e a riqueza dos detalhes, como a cobertura revestida com as tradicionais cerĆ¢micas coloridas Zsolnay. Um patrimĆ“nio que permanece vivo, conectando história, arquitetura e a vida cotidiana da cidade. O Mercado Central de Budapeste, abriga bancas de alimentos, produtos locais, especiarias como a pĆ”prica, artesanato e diversos produtos que revelam um pouco da cultura hĆŗngara,  a cidade acontecendo.

           Cores e sabores do Great Market Hall Budapest,2026. Acervo MRS Iervolino

As cores, os aromas, os produtos expostos e a própria organização das bancas criavam uma experiĆŖncia muito diferente daquela proporcionada pelos grandes monumentos. Para quem observa a cidade tambĆ©m pelo olhar da arquitetura, esses espaƧos sĆ£o igualmente importantes, eles revelam como as pessoas ocupam, utilizam e dĆ£o significado aos edifĆ­cios. 

Um momento para caminhar sem pressa, observar os detalhes e experimentar um pouco da vida cotidiana hĆŗngara, alternando  entre o monumental e o cotidiano, o que foi se tornando uma das caracterĆ­sticas mais interessantes da viagem. Budapeste nĆ£o estava apenas nos seus grandes edifĆ­cios históricos, estava tambĆ©m nos mercados, nas ruas, nos bondes, nas margens do DanĆŗbio e nas pessoas que encontrĆ”vamos pelo caminho.

                             Great Market Hall Budapest,2026. Acervo MRS Iervolino

                              Great Market Hall Budapest,2026. Acervo MRS Iervolino
Great Market Hall Budapest,2026. Acervo MRS Iervolino

A gastronomia tambĆ©m fazia parte dessa descoberta, pois entre mercados, cafĆ©s e restaurantes,  experimentar os sabores locais, tambĆ©m Ć© uma maneira de conhecer a cidade e sua cultura. Observar, caminhar, ouvir e, claro, experimentar.

                        Goulash, um tipico prato hungaro. 2026. Acervo MRS Iervolino

Goulash, prato tĆ­pico hungaro, 2026. Acervo MRS Iervolino

Neste percurso pela cidade encontramos o KlauzĆ”l tĆ©ri piac kapuja, uma grande galeria instalada em um edifĆ­cio histórico, onde acontecia uma feira que reunia produtos orgĆ¢nicos, peƧas vintage, brechó, discos de vinil e objetos de diferentes Ć©pocas. O espaƧo com muita personalidade se mostrava uma forma interessante de ocupação contemporĆ¢nea de uma construção histórica. O passado aparecia nĆ£o apenas na arquitetura do edifĆ­cio, mas tambĆ©m nos próprios objetos encontrados ali, entre discos, roupas, peƧas antigas e produtos artesanais

                            KlauzĆ”l tĆ©ri piac kapuja, edificio, galeria. 2026.                                                                          Acervo MRS Iervolino

Em frente a este edifĆ­cio, o Klauzal, havia uma grande praƧa ou parque que parecia tambĆ©m dar vida aquele bairro, playground, quadra esportiva e espaƧos para permanecer, conversar e aproveitar o lugar. Essa regiĆ£o fazia parte do antigo bairro judeu de Budapeste, marcada por uma história complexa e por profundas transformaƧƵes. Caminhar por ali  era perceber que a memória nĆ£o estava apenas nos edifĆ­cios preservados ou nos monumentos, mas tambĆ©m na própria configuração urbana e nas formas como aquele espaƧo continuava sendo utilizado. CrianƧas brincando, pessoas utilizando a quadra, moradores circulando e visitantes descobrindo o lugar mostravam uma cidade viva sobre um território carregado de história. 

Uma experiência me nos faz pensar novamente sobre como a preservação urbana pode estar associada à continuidade de uso: um lugar histórico não precisa ser transformado em um cenÔrio congelado no tempo para preservar sua identidade; ele pode continuar sendo apropriado pelas pessoas e incorporado à vida cotidiana.

Budapeste uma cidade que fica guardada para sempre na memória. NĆ£o apenas pelos grandes monumentos ou pela beleza do DanĆŗbio, mas pela soma das experiĆŖncias,  a cidade se revela aos poucos, atravĆ©s de diferentes escalas e experiĆŖncias. Vimos a cidade monumental, mas tambĆ©m aquela das pequenas descobertas; os grandes edifĆ­cios históricos, mas tambĆ©m os espaƧos cotidianos; a arquitetura que admirĆ”vamos e os lugares que simplesmente encontramos pelo caminho.

História, arquitetura, memória e vida. Uma cidade que não se revela de uma única vez, mas enquanto caminhamos, descobrimos, e a vivenciamos. Uma cidade incrível e belíssima do leste europeu, uma experiencia enriquecedora.

            

“ENTRE O DANUBIO, A MEMORIA E A VIDA URBANA"

EM UM PRƓXIMO CAPITULO PEGAREMOS O FURNICULAR E CONHECEREMOS O LADO BUDA DE BUDAPEST. 

Obs: Na escrita: Budapeste (em portugues) Budapest (em ingles) 

šŸŒA ARQUITETURA QUE ENCONTREI PELO MUNDO

Este texto integra a sƩrie A Arquitetura que encontrei pelo Mundo, um conjunto de reflexƵes sobre cidades, edifƭcios e paisagens observados durante minha viagens.
Em outros capĆ­tulos, o percurso segue por Mykonos, Santorini, Lisboa, Recife, Paraty, Diamantina e outros destinos, explorando diferentes formas de compreender a arquitetura, a cultura, a paisagem e a identidade dos lugares.

Marcilene Iervolino é Arquiteta e Urbanista, Doutoranda pela FAU-USP, Mestre em Políticas Públicas, MBA em Neurociência Aplicada à Arquitetura, Especialista em Arquitetura de Interiores, Meio Ambiente e História do Brasil (UEVA), e docente nos cursos de Arquitetura e Urbanismo.

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