🌍 SÉRIE: A ARQUITETURA QUE ENCONTREI PELO MUNDO | CAPÍTULO 6: BUDAPEST | HUNGRIA
BUDAPESTE 🇭🇺, ENTRE O DANUBIO, A MEMORIA E ARQUITETURA
Chegar a
Budapeste na Hungria, foi, desde os primeiros momentos, uma experiência marcada
por bons contrastes. A cidade nos apresentava uma combinação muito particular
entre construções históricas, arquitetura clássica e edifícios modernos,
especialmente aqueles surgidos no período pós guerra, uma cidade reconstruida.
Havia algo fascinante nessa convivência de diferentes épocas: o antigo não
parecia simplesmente separado do novo, mas integrado a uma paisagem urbana
complexa, na qual diferentes momentos da história permaneciam visíveis. Como
arquiteta, essa foi uma das primeiras características que me chamou a atenção.
Caminhar por Budapeste significava, quase sempre, observar mais de uma época ao
mesmo tempo.
A VISTA DA JANELA
A vista da janela do hotel,e me proporcionou uma das primeiras imagens marcantes de Budapeste. Ao longe, era possível perceber um templo ligado à tradição de Martinho Lutero; na outra esquina, em contraste, aparecia um edifício contemporâneo, com estrutura metálica e grandes superfícies de vidro. Entre eles, os bondes passavam pelas ruas, acrescentando movimento à paisagem e reforçando aquela sensação de que diferentes tempos conviviam naturalmente diante dos nossos olhos. Era quase uma síntese da cidade que começávamos a descobrir. Não era necessário chegar a um grande monumento para perceber sua arquitetura: bastava olhar pela janela.
Praça em Budapest,2026. Acervo MRS Iervolino
Uma das experiências incríveis foi o
cruzeiro que fizemos pelo Danúbio. O rio não é apenas um elemento da paisagem;
ele estrutura a própria cidade e estabelece uma relação muito particular entre
Buda e Peste. Durante o cruzeiro, a cidade parecia se revelar de outra maneira.
Vista a partir da água, a arquitetura ganhava escala e os edifícios que
havíamos observado pelas ruas passavam a fazer parte de uma composição urbana
muito mais ampla. Entre os principais pontos do percurso estava o Parlamento
Húngaro, cuja monumentalidade se torna ainda mais impressionante quando
observada às margens do rio. Também passamos pelo House of Music
Hungary, um edifício contemporâneo que chama atenção
pela arquitetura e pela relação que estabelece com a vegetação ao redor. Sua
cobertura parece flutuar entre as árvores, criando uma presença bastante
diferente daquela dos edifícios históricos que dominam boa parte da paisagem de
Budapeste. Essa convivência entre arquiteturas de épocas tão distintas foi uma
das características que mais me despertou interesse durante a viagem.
Depois do cruzeiro, continuamos caminhando pelas margens do Danúbio. Naquele dia, uma das ruas próximas ao rio estava fechada ao trânsito e o espaço havia sido ocupado pelas pessoas. Havia atividades acontecendo, grupos reunidos, música e um movimento diferente do habitual, criando uma atmosfera bastante descontraída. Era interessante perceber como aquele trecho da cidade podia se transformar temporariamente em um grande espaço de convivência, onde as pessoas caminhavam, se encontravam e participavam das atividades, espaços de fruição verdadeiros.
i Ruas de lazer, a cidade acontecendo.2026. Acervo de MRS Iervolino
Foi nesse ambiente que, ao longe, começamos a ouvir música brasileira. À medida que nos aproximávamos, percebemos um grupo de pessoas reunido, fazendo uma homenagem ao Brasil por causa do jogo da Copa 2026 que aconteceria mais tarde. Naturalmente, paramos para observar e acabamos ficando um pouco por ali. Foi um daqueles momentos espontâneos que não estavam no roteiro, mas que acabam se tornando uma das lembranças divertidas da viagem.
MEMÓRIA AS MARGENS DO DANUBIO
Durante nosso percurso pelas margens do
Danúbio, encontramos também um lugar que nos fez interromper a caminhada e
olhar para a cidade de outra maneira: o Memorial dos Sapatos às Margens do
Danúbio. Criado em memória dos judeus mortos durante a Segunda Guerra
Mundial, o memorial é formado por dezenas de pares de sapatos de ferro
dispostos junto ao rio. A simplicidade da representação é justamente o que
torna o lugar tão impactante. Ali, o Danúbio, que até então havíamos
experimentado como paisagem, como eixo urbano e como elemento de conexão entre
Buda e Peste, assumia outra dimensão. A beleza da cidade permanecia ao redor,
mas aquele memorial nos lembrava que os mesmos lugares que hoje admiramos
também foram palco de acontecimentos dolorosos de sua história. Foi um momento
de silêncio e reflexão durante a caminhada. O memorial mostra como a memória
pode ocupar o espaço urbano de maneira delicada, sem competir com a paisagem,
mas estabelecendo uma relação direta entre o lugar e aquilo que ele representa.
Para mim, como arquiteta e pesquisadora do patrimônio, essa presença da memória
no espaço público também faz pensar sobre o papel da cidade em preservar não
apenas seus edifícios e monumentos, mas também as histórias que não podem ser
esquecidas.
Memorial dos sapatos a beira do Danubio, um momento de reflexão e sensibilidade,2026. Acervo MRS Iervolino
Em outro momento, fomos simplesmente
caminhar pelo centro de Budapeste, observando as ruas, as fachadas, o movimento
das pessoas e a vida cotidiana da cidade. Entre uma descoberta e outra,
encontramos um lugar que já faz parte dos meus pequenos rituais de viagem: o Hard Rock Cafe. Sempre
que viajo e existe um Hard Rock na cidade, gosto de conhecer. É quase uma
brincadeira que acabou se transformando em uma espécie de coleção de memórias
das cidades por onde passo. Em Budapeste não seria diferente. Entrar ali foi
fazer uma pequena pausa no percurso e, ao mesmo tempo, reconhecer algo familiar
em uma cidade completamente nova. Talvez esses pequenos rituais sejam
justamente uma das maneiras de criar vínculos entre diferentes viagens: cada
cidade tem sua própria identidade, mas alguns elementos acabam acompanhando
nossa trajetória.
GREAT MARKET HALL - Nagyvásárcsarnok MERCADO CENTRAL: ARQUITETURA E VIDA COTIDIANA
Em outro momento da viagem, fomos conhecer o O 𝐆𝐫𝐞𝐚𝐭 𝐌𝐚𝐫𝐤𝐞𝐭 𝐇𝐚𝐥𝐥 (Nagyvásárcsarnok), inaugurado em 1897, é uma das maiores expressões da arquitetura do ferro em 𝐁𝐮𝐝𝐚𝐩𝐞𝐬𝐭. Sua monumental estrutura metálica, combinada às amplas superfícies envidraçadas, permitiu criar um grande espaço, iluminado e funcional, um marco da arquitetura do final do século XIX. O edifício revela como o ferro revolucionou a arquitetura, com inovação estrutural, estética e a riqueza dos detalhes, como a cobertura revestida com as tradicionais cerâmicas coloridas Zsolnay. Um patrimônio que permanece vivo, conectando história, arquitetura e a vida cotidiana da cidade. Mercado Central de Budapeste, abriga bancas de alimentos, produtos locais, especiarias, artesanato e diversos produtos que revelam um pouco da cultura húngara, e foi possível perceber a cidade acontecendo.
ores e sabores do Great Market Hall Budapest,2026. Acervo MRS Iervolino
As cores, os aromas, os produtos expostos e a própria organização das bancas criavam uma experiência muito diferente daquela proporcionada pelos grandes monumentos. Para quem observa a cidade também pelo olhar da arquitetura, esses espaços são igualmente importantes. Eles revelam como as pessoas ocupam, utilizam e dão significado aos edifícios. O mercado também trouxe uma pausa na sucessão de monumentos e paisagens que estávamos conhecendo. Era um momento para caminhar sem pressa, observar os detalhes e experimentar um pouco da vida cotidiana húngara, alternando entre o monumental e o cotidiano, o que foi se tornando uma das características mais interessantes da viagem. Budapeste não estava apenas nos seus grandes edifícios históricos. Estava também nos mercados, nas ruas, nos bondes, nas margens do Danúbio e nas pessoas que encontrávamos pelo caminho.
Great Market Hall Budapest,2026. Acervo MRS Iervolino
Great Market Hall Budapest,2026. Acervo MRS Iervolino
A gastronomia também fazia parte dessa descoberta. Entre mercados, cafés e restaurantes, fomos experimentando alguns sabores locais, outra maneira de conhecer uma cidade e sua cultura. Viajar também é observar, caminhar, ouvir e, claro, experimentar.
Ao fim do dia, Goulash, um prato hungaro delicioso, 2026. Acervo MRS Iervolino
Em outro dia, decidimos simplesmente caminhar por Budapeste, sem a preocupação de seguir uma programação rígida. Fomos entrando em ruas, observando fachadas e deixando que a própria cidade nos conduzisse. Foi assim que chegamos ao Klauzál téri piac kapuja, instalado em um edifício histórico, onde acontecia uma feira que reunia produtos orgânicos, peças vintage, roupas de brechó, discos de vinil e objetos de diferentes épocas. O espaço tinha muita personalidade e mostrava uma forma interessante de ocupação contemporânea de uma construção histórica. O passado aparecia não apenas na arquitetura do edifício, mas também nos próprios objetos encontrados ali. Entre discos, roupas, peças antigas e produtos artesanais, fomos caminhando sem pressa, descobrindo um lugar que sequer estava no roteiro.
Klauzál téri piac kapuja, edificio, galeria. 2026. Acervo MRS Iervolino
Em frente ao edifício havia uma praça que também chamou nossa atenção pela maneira como era utilizada. Havia playground, quadra esportiva e espaços para permanecer, conversar e aproveitar o lugar. Estávamos em uma região que fazia parte do antigo bairro judeu de Budapeste, marcada por uma história complexa e por profundas transformações. Caminhar por suas ruas era perceber que a memória não estava apenas nos edifícios preservados ou nos monumentos, mas também na própria configuração urbana e nas formas como aquele espaço continuava sendo utilizado. Crianças brincando, pessoas utilizando a quadra, moradores circulando e visitantes descobrindo o lugar mostravam uma cidade viva sobre um território carregado de história. Essa experiência me fez pensar novamente sobre como a preservação urbana pode estar associada à continuidade de uso: um lugar histórico não precisa ser transformado em um cenário congelado no tempo para preservar sua identidade; ele pode continuar sendo apropriado pelas pessoas e incorporado à vida cotidiana.
BUDAPEST, UMA CIDADE EM CAMADAS
Talvez seja por isso que Budapeste tenha
ficado tão marcada na memória. Não foi apenas pelos grandes monumentos ou pela
beleza do Danúbio, mas pela soma das experiências, a cidade foi se revelando aos poucos, através
de diferentes escalas e experiências. Havia a cidade monumental, mas também
aquela das pequenas descobertas; havia os grandes edifícios históricos, mas
também os espaços cotidianos; havia a arquitetura que admirávamos e os lugares
que simplesmente encontramos pelo caminho.
Budapeste, uma cidade de camadas, de
história, arquitetura, memória e vida. Uma cidade que não se revela de uma
única vez, mas aos poucos, enquanto caminhamos por ela. E talvez seja
justamente isso que faz uma viagem permanecer: quando, muito depois de voltar
para casa, algumas imagens continuam surgindo na memória como se ainda
estivéssemos caminhando por aquelas ruas. Uma cidade incrível do leste europeu, uma experiencia enriquecedora.
NO PRÓXIMO CAPITULO PEGAREMOS O FURNICULAR E CONHECEREMOS O LADO BUDA DE BUDAPEST.
🌍A ARQUITETURA QUE ENCONTREI PELO MUNDO
Este texto integra a série A Arquitetura que encontrei pelo Mundo, um conjunto de reflexões sobre cidades, edifícios e paisagens observados durante minha viagens.Em outros capítulos, o percurso segue por Mykonos, Santorini, Lisboa, Recife, Paraty, Diamantina e outros destinos, explorando diferentes formas de compreender a arquitetura, a cultura, a paisagem e a identidade dos lugares.
Marcilene Iervolino é Arquiteta e Urbanista, Doutoranda pela FAU-USP, Mestre em Políticas Públicas, MBA em Neurociência Aplicada à Arquitetura, Especialista em Arquitetura de Interiores, Meio Ambiente e História do Brasil (UEVA), e docente nos cursos de Arquitetura e Urbanismo.


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