š§ NEUROARQUITETURA | O CEREBRO E A EXPERIĆNCIA DO ESPAĆO
NEUROARQUITETURA | O CĆREBRO
E A EXPERIĆNCIA DO ESPAĆO
Do ambiente que vemos ao ambiente que
sentimos
Entramos em um espaƧo e, antes mesmo de
compreendermos racionalmente onde estamos, nosso corpo jƔ comeƧou a responder.
Podemos sentir acolhimento ou estranhamento, tranquilidade ou alerta,
curiosidade ou vontade de permanecer. Essas respostas nem sempre são
conscientes e acontecem a partir da interação entre percepção, memória, emoção,
sentidos e experiências anteriores. A neurociência tem ampliado a compreensão
dessa relação ao investigar como o ambiente construĆdo participa dos processos
cognitivos e emocionais que orientam nossa experiĆŖncia cotidiana.
A arquitetura, portanto, não é apenas
aquilo que vemos. Ela tambƩm Ʃ aquilo que percebemos, percorremos e sentimos.
Uma abertura pode enquadrar uma paisagem; uma parede pode nos proteger; uma
mudança de iluminação pode alterar a atmosfera; a textura de uma pedra pode
provocar uma percepção diferente daquela produzida por uma superfĆcie lisa; um
som pode tornar um ambiente acolhedor ou desconfortÔvel. Mesmo quando não
prestamos atenção conscientemente a todos esses elementos, eles fazem parte da
experiĆŖncia espacial e contribuem para a maneira como nos relacionamos com o
lugar.
Ć nesse ponto que a neuroarquitetura
encontra a arquitetura como experiĆŖncia. Mais do que procurar respostas prontas
sobre o que determinada forma, cor ou material “faz” com o cĆ©rebro, interessa
compreender como diferentes caracterĆsticas ambientais podem favorecer
determinadas experiências humanas. Afinal, não somos receptores passivos do
espaço: percebemos o ambiente a partir do nosso corpo, da nossa história, da
cultura e das circunstâncias daquele momento. A própria literatura da Ôrea
destaca que os efeitos cognitivos e emocionais do ambiente construĆdo sĆ£o
complexos e ainda estão em investigação.
O ESPAĆO ENTRE PROTEĆĆO E DESCOBERTA
Entre as relaƧƵes mais
interessantes estĆ” aquela estabelecida entre refĆŗgio e prospecto. O
refúgio corresponde à sensação de proteção oferecida por um espaço mais
envolvente, enquanto o prospecto estĆ” relacionado Ć possibilidade de observar o
entorno, ter uma visão mais ampla e compreender o que acontece ao redor. Esses
dois princĆpios, presentes hĆ” dĆ©cadas nos estudos de ambiente e comportamento e
posteriormente incorporados Ć s discussƵes sobre design biofĆlico, ajudam a
compreender por que alguns espaƧos parecem simultaneamente acolhedores e
estimulantes.
Pense em uma poltrona
posicionada em um canto protegido, mas voltada para uma grande janela. O corpo
encontra abrigo, enquanto os olhos encontram distância. HÔ uma sensação de
estar protegido sem perder a possibilidade de observar. Talvez seja justamente
essa combinação que torne determinados lugares tão convidativos: podemos
permanecer recolhidos e, ao mesmo tempo, conectados ao que acontece alƩm de
nós.
A arquitetura pode criar
essas gradações de proteção e abertura de muitas maneiras. Um banco junto a uma
parede, uma varanda parcialmente protegida, uma janela profundamente enquadrada
ou mesmo uma mudança de altura podem modificar nossa relação com o espaço. Não
se trata de aplicar uma fórmula universal, mas de compreender que a
configuração espacial oferece diferentes possibilidades de comportamento e
percepção.
VER Ć TAMBĆM COMPREENDER
A experiência arquitetÓnica
comeƧa muito antes de chegarmos ao detalhe construtivo. Quando entramos em um
edifĆcio, procuramos referĆŖncias, identificamos caminhos, reconhecemos limites
e tentamos compreender para onde podemos ir. O cérebro constrói representações
espaciais que nos ajudam a orientar nossos movimentos, lembrar lugares e
estabelecer relaƧƵes entre diferentes partes do ambiente. Estudos sobre
neuroarquitetura têm investigado justamente essa relação entre arquitetura,
percepção espacial, memória e navegação.
Esse pub a 10.000 km de casa, em Budapest, me fez relebrar o Brasil em questão de segundos, essa referência de piso em caquinhos das antigas casas brasileiras. Imagem (Acervo MRS Iervolino, 2026)
Por isso, um espaƧo legĆvel
pode produzir uma experiência muito diferente daquela de um ambiente em que não
conseguimos compreender facilmente onde estamos ou para onde devemos seguir. A
arquitetura participa da construção dessa leitura por meio de eixos, aberturas,
referências visuais, mudanças de escala, iluminação, materiais e sequências
espaciais.
HĆ” lugares em que percebemos
imediatamente a direção a seguir. Em outros, somos convidados a descobrir aos
poucos. Uma passagem parcialmente escondida, uma mudanƧa de luz ou uma abertura
que revela apenas parte da paisagem pode criar expectativa e curiosidade.
Ć nesse momento que a
arquitetura deixa de ser apenas cenÔrio e passa a ser experiência em
movimento.
QUANDO A NATUREZA ENTRA
NA EXPERIĆNCIA
A relação com a natureza
acrescenta outra camada a essa experiĆŖncia. A biofilia e o design biofĆlico
partem da compreensĆ£o de que a presenƧa de elementos e caracterĆsticas naturais
pode contribuir para experiĆŖncias mais positivas no ambiente construĆdo. Isso
não significa simplesmente colocar plantas em um espaço, mas pensar em relações
mais amplas com luz, Ôgua, ar, vegetação, vistas, formas, padrões, materiais e
outros estĆmulos associados Ć natureza.
Uma janela que permite
observar Ɣrvores Ʃ diferente de uma parede que simplesmente recebe uma imagem
de uma paisagem. O som da Ôgua não é igual à representação visual de um rio. A
madeira possui textura, temperatura e cheiro próprios. A luz atravessando uma
copa de Ôrvores produz sombras que se modificam ao longo do dia. São
experiĆŖncias que envolvem diferentes sentidos e que podem atuar
simultaneamente.
Pesquisas experimentais e
revisões recentes encontram evidências de associações positivas entre exposição
a ambientes naturais e aspectos do estado emocional, embora os resultados
dependam do contexto e dos mƩtodos utilizados.
Talvez por isso a natureza na
arquitetura seja tão poderosa quando não é tratada apenas como decoração. Ela
pode introduzir variação, profundidade, movimento, temporalidade e surpresa.
Uma folha que se movimenta com o vento, uma sombra que muda durante o dia ou
uma paisagem que se transforma com as estações lembram que o espaço não é
completamente estƔtico.
A ARQUITETURA QUE PODE SER SENTIDA
TambƩm existe uma arquitetura que
percebemos com os olhos, mas que compreendemos melhor quando experimentamos com
o corpo.
A materialidade participa dessa
experiência. Pedra, madeira, cerâmica, tecido, concreto e metal possuem
caracterĆsticas diferentes e produzem respostas sensoriais distintas. Mesmo sem
tocar diretamente em uma superfĆcie, podemos antecipar sua textura, peso ou
temperatura a partir da visão e das experiências que acumulamos ao longo da
vida.
Ć aqui que a arquitetura se aproxima novamente daquilo que Juhani Pallasmaa (2011) chama nossa atenção: a experiĆŖncia arquitetĆ“nica nĆ£o deveria ser reduzida ao domĆnio da visĆ£o. O corpo inteiro participa da percepção do espaƧo. Uma parede de pedra pode transmitir solidez. A madeira pode trazer uma percepção de calor e proximidade. Um tecido pode suavizar visualmente uma superfĆcie. A rugosidade, o brilho, a temperatura e atĆ© a maneira como um material responde ao som contribuem para a atmosfera de um ambiente.
A materialidade sensorial, percepƧƵes acerca das sensaƧƵes.(MRSI 2026)
Por isso, falar em materialidade
sensorial não significa escolher materiais simplesmente porque parecem
“aconchegantes” em uma fotografia. Significa pensar na experiĆŖncia que
aquele material constrói quando integrado ao conjunto do espaço.
ENTRE LUZ E SOMBRA
E então chegamos à luz! Depois de escrever sobre ciclo circadiano e iluminação, percebo que a luz merece ser observada por outra perspectiva: não apenas como um elemento relacionado ao funcionamento biológico, mas também como matéria da própria arquitetura. A luz revela volumes, cria profundidade, conduz o olhar e estabelece diferentes atmosferas. A sombra, por sua vez, desenha aquilo que a luz não revela completamente. Juntas, elas criam contraste, ritmo e transformação.
Uma mesma sala pode parecer
completamente diferente pela manhã e no final da tarde. Uma abertura pode
projetar sobre a parede o movimento das folhas de uma Ɣrvore. Uma claraboia
pode fazer com que o olhar se volte para cima. Uma passagem mais escura pode
preparar o corpo para a luminosidade de um espaƧo seguinte.
A luz tambƩm Ʃ tempo. Ela
muda durante o dia e, ao mudar, transforma a arquitetura diante dos nossos
olhos. à justamente por isso que a iluminação arquitetÓnica pode ser pensada
para alƩm da quantidade de luz necessƔria para enxergar. Ela pode participar da
construção da experiência, respeitando tanto as necessidades biológicas quanto
as dimensƵes perceptivas e emocionais do espaƧo.
ANTES DE ENTENDER, NĆS SENTIMOS
RefĆŗgio. Prospecto. Natureza. Materialidade. Luz e sombra.
Quando observamos esses
elementos separadamente, podemos tratƔ-los como conceitos ou estratƩgias de
projeto. Mas, na experiĆŖncia real, eles nunca aparecem isolados. Eles se
encontram, se sobrepõem e produzem uma experiência muito mais complexa.
Um ambiente pode oferecer
proteção e, ao mesmo tempo, uma vista ampla. Pode utilizar materiais naturais e
receber luz filtrada pelas Ɣrvores. Pode conduzir o movimento por meio de uma
sequência de espaços enquanto cria momentos de pausa e contemplação.
à justamente nessa combinação
que a neuroarquitetura se torna interessante para o projeto: não para
transformar a arquitetura em uma coleção de fórmulas sobre o cérebro, mas para
ampliar nossa capacidade de observar, questionar e projetar espaƧos mais
atentos Ć s pessoas.
Talvez a pergunta mais importante nĆ£o seja simplesmente “como o cĆ©rebro reage a este espaƧo?”, mas:
“Que experiĆŖncia este espaƧo estĆ” convidando o corpo a viver?”
Porque antes de compreender
uma arquitetura, nós a percebemos. Antes de descrevê-la, nós a percorremos. E,
muitas vezes, antes mesmo de saber explicar por que um lugar nos marcou, jĆ”
sentimos que alguma coisa aconteceu ali.
ARQUITETURA, CĆREBRO E EXPERIĆNCIA HUMANA.
No fim, talvez seja esse o verdadeiro
encontro entre neurociência e arquitetura: compreender que projetar espaços é
também projetar possibilidades de percepção, de comportamento, de memória e de
experiĆŖncia.
š§ Arquitetura, percepção e experiĆŖncia humana.
Marcilene Iervolino Ć© Arquiteta e Urbanista, Doutoranda pela FAU-USP, Mestre em PolĆticas PĆŗblicas, MBA em NeurociĆŖncia Aplicada Ć Arquitetura, Especialista em Arquitetura de Interiores, Meio Ambiente e História do Brasil, e docente nos cursos de Arquitetura e Urbanismo.
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