🌍SÉRIE: A ARQUITETURA QUE ENCONTREI PELO MUNDO | CAPÍTULO 3: PORTO
PORTO: UMA CIDADE CONSTRUÍDA ENTRE A PEDRA E O RIO
Vila Nova de Gaya, Porto, Portugal, 2025. Acervo de Marcilene R S Iervolino
Existem cidades que impressionam pela monumentalidade de seus edifícios. Porto impressiona pela forma como arquitetura, paisagem e memória convivem de maneira intensa e autêntica.
Localizada às margens do Rio Douro, a cidade revela uma relação muito particular entre topografia, patrimônio histórico e vida urbana. Caminhar por Porto significa percorrer ruas estreitas, escadarias, pontes, fachadas revestidas por azulejos, edifícios de pedra e paisagens que parecem construir uma narrativa contínua entre passado e presente.
Logo nos primeiros percursos pela cidade, percebe-se que Porto preserva uma identidade arquitetônica muito própria. Diferentemente de outras cidades europeias marcadas pela monumentalidade clássica, Porto apresenta uma beleza construída na sobreposição do tempo, nas marcas da materialidade, na escala humana dos espaços e na forte relação com o rio.
Rio Douro, Porto, Portugal, 2025. Acervo de Marcilene R S IervolinoA Ribeira, uma das áreas mais emblemáticas da cidade, evidencia essa relação entre arquitetura e paisagem urbana. As construções históricas, os diferentes níveis da topografia e a presença constante do Douro criam cenários de grande riqueza visual e sensorial.
As fachadas estreitas e coloridas, muitas revestidas por azulejos portugueses, revelam não apenas uma linguagem estética característica, mas também elementos culturais profundamente ligados à identidade local.
O passeio de barco pelo Rio Douro permitiu observar a cidade sob outra perspectiva. A partir do rio, Porto revela sua relação histórica com as pontes, com as encostas e com a própria formação urbana construída ao longo do tempo.
Rio Douro, Porto, Portugal, 2025. Acervo de Marcilene R S Iervolino
Entre os elementos arquitetônicos mais marcantes está a Ponte Dom Luís I, símbolo da cidade e uma das estruturas mais emblemáticas do Porto. Sua presença metálica atravessando o Douro conecta Porto a Vila Nova de Gaia e estabelece uma forte relação entre engenharia, paisagem e patrimônio urbano.
Ao entardecer, a paisagem vista da ponte transforma-se completamente. Os tons dourados refletidos sobre o rio e sobre as fachadas históricas criam uma atmosfera de grande sensibilidade visual. No verão o por do sol acontece as 21h, perfeito para aproveitar ainda mais a cidade com dias longos e um clima muito bom!
Por do sol ás 21h na Ponte D Luis I sobre o Rio Douro, Vila Nova de Gaya, Porto, Portugal, 2025. Acervo de Marcilene R S Iervolino
Do outro lado do rio, em Vila Nova de Gaia, a cidade apresenta outra importante dimensão cultural: as tradicionais adegas do vinho do Porto. A relação entre arquitetura, atividade econômica e memória histórica torna-se muito evidente nesse território marcado pelos armazéns, pelas caves e pela paisagem voltada para o Douro.
O Cais de Gaia revela uma das vistas mais bonitas da cidade, permitindo observar Porto em sua totalidade, com suas pontes, igrejas, casarios e diferentes camadas urbanas construídas sobre a topografia.
Entre os edifícios religiosos que marcam a paisagem urbana do Porto, destaca-se também a Igreja de Santo Ildefonso, localizada próxima à Praça da Batalha. Construída no século XVIII, a igreja chama atenção pela expressiva fachada revestida por azulejos azuis e brancos, elemento profundamente presente na identidade arquitetônica portuguesa. Os painéis cerâmicos representam cenas da vida de Santo Ildefonso e contribuem para transformar o edifício em um importante marco visual e cultural da cidade. Mais do que ornamentação, os azulejos revelam uma tradição artística e construtiva que integra arquitetura, memória e patrimônio urbano.
Igreja Santo Ildefonso, Porto, Portugal, 2025. Acervo de Marcilene R S Iervolino
Outro importante marco arquitetônico da cidade é a Igreja do Carmo, um dos edifícios religiosos mais emblemáticos do Porto.
Sua fachada lateral revestida por azulejos azuis e brancos tornou-se uma das imagens mais conhecidas da arquitetura portuguesa. Os painéis cerâmicos representam passagens relacionadas à Ordem Carmelita e revelam a forte tradição artística dos azulejos como elemento integrante da arquitetura e da identidade cultural portuguesa.
A composição entre pedra, ornamentação barroca e revestimentos cerâmicos cria um contraste visual marcante, reforçando a riqueza estética presente nos edifícios históricos da cidade.
Mais do que elementos decorativos, os azulejos portugueses funcionam como importantes registros culturais e narrativos, contribuindo para transformar as fachadas urbanas em verdadeiros painéis históricos.
Outro edifício religioso que chamou atenção durante os percursos pela cidade foi a Igreja de N Sra da Lapa, importante marco histórico e arquitetônico do Porto.
Com sua monumentalidade e presença urbana expressiva, a igreja revela características marcantes da arquitetura religiosa portuguesa, destacando-se pela composição clássica da fachada, pela verticalidade da torre e pela forte inserção na paisagem da cidade. Além de sua relevância arquitetônica, a Igreja da Lapa também possui importante significado histórico e cultural para Porto, integrando a memória urbana e religiosa da cidade.
Assim como outros edifícios sacros portugueses, sua presença reforça a maneira como arquitetura, patrimônio e identidade coletiva permanecem profundamente conectados no tecido urbano portuense.
Igreja da Lapa, Porto Gaya, Portugal, 2025. Acervo de Marcilene R S Iervolino
Vista interna da Igreja de Nossa senhora da Lapa, Porto Gaya, Portugal, 2025. Acervo de Marcilene R S Iervolino
Entre os espaços visitados, a Livraria Lello também merece destaque. Considerada uma das livrarias mais belas do mundo, o edifício apresenta uma atmosfera singular, marcada pela riqueza ornamental, pela escadaria central e pela intensa relação entre arquitetura, literatura e experiência espacial.
Mais do que um espaço comercial, a livraria tornou-se um importante símbolo cultural da cidade.
Lello Livraria, Porto, Portugal, 2025. Acervo de Marcilene R S Iervolino
Outro ponto marcante da experiência em Porto foi a visita à Igreja de Mafamude, em Vila Nova de Gaia. Assim como muitos edifícios religiosos portugueses, a construção revela a forte presença histórica da arquitetura sacra na paisagem urbana e sua relação com a memória coletiva e a identidade cultural local.
Igreja de Mafamude, Porto Gaya, Portugal, 2025. Acervo de Marcilene R S Iervolino
O primeiro dia em Porto foi finalizado de forma muito especial, em um tradicional jantar português no Herança Magna. Além da gastronomia típica portuguesa, a experiência foi marcada pela música e pelas apresentações de fado e dança tradicional, revelando uma importante dimensão cultural da cidade e da identidade portuguesa.
Mais do que uma refeição, o jantar tornou-se uma experiência sensorial completa. Os sabores, a música, o ambiente e a atmosfera do lugar permitiram compreender como cultura, arquitetura e memória também se manifestam através das experiências cotidianas e das tradições locais.
A culinária portuguesa, os vinhos, o fado e a forte relação com a tradição transformaram a noite em um dos momentos mais marcantes da experiência em Porto.
Ao longo dos percursos pela cidade, percebe-se que Porto preserva uma atmosfera muito própria, onde patrimônio, cotidiano e vida urbana convivem de forma natural. Cafés, ruas estreitas, escadarias, fachadas de pedra e miradouros constroem uma experiência urbana profundamente humana e sensorial.
A presença constante do Rio Douro reforça essa identidade. Mais do que um elemento geográfico, o rio participa diretamente da construção da paisagem, da memória e da cultura da cidade.
O Rio Douro se destaca na paisagem urbana de Porto, entre Pontes e a cidade. Porto, Portugal, 2025. Acervo de Marcilene R S Iervolino
Caminhar por Porto é compreender como arquitetura, topografia e memória coletiva podem construir cidades profundamente autênticas.
Em suas ruas, pontes, edifícios históricos e paisagens voltadas para o Douro, Porto preserva uma atmosfera singular, onde o tempo permanece visível na materialidade da cidade e na relação contínua entre patrimônio, cultura e vida cotidiana.
🌍A ARQUITETURA QUE ENCONTREI PELO MUNDO
Marcilene Iervolino é Arquiteta e Urbanista, Doutoranda pela FAU-USP, Mestre em Políticas Públicas, MBA em Neurociência Aplicada à Arquitetura, Especialista em Arquitetura de Interiores, Meio Ambiente e História do Brasil (UEVA), além de docente nos cursos de Arquitetura e Urbanismo.


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