🌍SÉRIE: A ARQUITETURA QUE ENCONTREI PELO MUNDO | CAPÍTULO 2: ATENAS
ATENAS: CAMINHANDO PELAS ORIGENS DA ARQUITETURA
Parthenon, Acrópole de Atenas, 2024 ((Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)
A cada rua, praça, museu ou vestígio arqueológico, percebe-se a presença de uma herança cultural que atravessou séculos e continua influenciando a forma como pensamos a arte, a filosofia, a política e a arquitetura. Para quem estuda e atua na área da arquitetura, a experiência torna-se muito significativa. Estar diante da Acrópole, percorrer seus monumentos e observar a cidade contemporânea ao seu redor é compreender que muitos dos princípios que ainda orientam o projeto arquitetônico tiveram suas origens naquele território. Antes de iniciar a subida em direção à Acrópole, uma parada na Praça Syntagma permitiu observar a tradicional troca da guarda em frente ao Parlamento Grego. Realizada pelos Evzones, integrantes da Guarda Presidencial Grega, a cerimônia preserva uma tradição nacional e representa um importante símbolo da identidade do país.
Estádio Panatenaico, um dos locais mais emblemáticos da história do esporte e da civilização grega.
Originalmente construído no século IV a.C. para sediar os Jogos Panatenaicos, o estádio foi posteriormente reconstruído em mármore durante o período romano. Sua importância histórica ultrapassa a Antiguidade, pois foi nesse local que aconteceram os primeiros Jogos Olímpicos da era moderna, em 1896. A imponência de sua estrutura impressiona não apenas pela escala, mas também pela simplicidade e clareza de sua composição arquitetônica. Totalmente revestido em mármore branco, o estádio preserva uma forte conexão com a tradição construtiva grega e permanece como um dos mais importantes símbolos da história olímpica.
Percorrer suas arquibancadas foi uma oportunidade de refletir sobre a permanência de valores que atravessaram séculos. Assim como os monumentos da Acrópole, o Estádio Panatenaico demonstra como determinadas realizações humanas conseguem transcender o tempo, mantendo-se relevantes para diferentes gerações. A visita tornou-se ainda mais significativa por ocorrer em um período marcado pelas celebrações dos Jogos Olímpicos de Paris 2024, reforçando a conexão histórica entre a Grécia, berço dos Jogos Olímpicos, e um dos maiores eventos esportivos da atualidade, e estaríamos em Paris ao longo de alguns dias para também vivenciar a abertura das Olímpiadas.
ACRÓPOLE DE ATENAS
Pouco a pouco, a Acrópole surge na paisagem urbana, dominando o horizonte da cidade. Elevada sobre um maciço rochoso, ela permanece como um dos mais importantes símbolos da civilização grega e da história da arquitetura.
Atenas 2024 (Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)
Ao alcançar seu topo, compreende-se que a Acrópole não é apenas um monumento, mas um conjunto arquitetônico extraordinário que reúne alguns dos mais importantes edifícios da Antiguidade. O Parthenon, construído entre 447 e 432 a.C. em homenagem à deusa Atena, a principal referência da arquitetura clássica. Suas proporções cuidadosamente elaboradas, o refinamento de seus detalhes construtivos e a monumentalidade de sua implantação explicam por que ele continua inspirando arquitetos em todo o mundo.
Parthenon, Atenas 2024 (Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)Próximo ao Parthenon encontra-se o Erecteion, construído entre 421 e 406 a.C., pertencente à ordem jônica. O templo é reconhecido mundialmente por seu famoso Pórtico das Cariátides, onde esculturas femininas substituem as colunas tradicionais, criando uma das composições mais elegantes da arquitetura grega.
Outro elemento iconico é o Odeon de Herodes Ático. Construído no século II d.C., o teatro demonstra a importância que os gregos atribuíam à integração entre arquitetura, arte e espaço público. Ainda hoje utilizado para apresentações culturais, o local mantém viva uma tradição iniciada há quase dois mil anos.
Odeon de Herodes Atico, Atenas 2024 (Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)Após percorrer a Acrópole, a visita continuou no Novo Museu da Acrópole, projetado pelo arquiteto Bernard Tschumi. Inaugurado em 2009, o edifício estabelece um interessante diálogo entre passado e presente. A arquitetura contemporânea do novo museu utiliza vidro, concreto e amplos espaços expositivos para valorizar as peças arqueológicas e, ao mesmo tempo, manter uma relação visual permanente com a própria Acrópole. Em diversos momentos do percurso, o visitante observa simultaneamente os vestígios históricos e o monumento original na paisagem, criando uma experiência única de conexão entre arquitetura, arqueologia e memória.
Museu Acropole, Atenas 2024 (Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)Museu Acropole, Atenas 2024 (Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)
Nessas galerias, torna-se evidente que a história grega é composta por múltiplas camadas culturais, onde arte, arquitetura, religião e patrimônio dialogam continuamente. Após as visitas aos monumentos e museus, seguimos para o bairro de Plaka, considerado um dos mais antigos e charmosos de Atenas.
Localizado aos pés da Acrópole, o bairro preserva uma atmosfera singular, marcada por ruas estreitas, pequenas praças, escadarias, cafés e construções que revelam diferentes períodos da história da cidade. Caminhar por Plaka é descobrir uma Atenas mais próxima das pessoas, onde a arquitetura se manifesta não apenas nos grandes monumentos, mas também nos espaços cotidianos. As edificações com baixo gabarito, as fachadas coloridas e a intensa ocupação dos espaços públicos criam uma paisagem urbana acolhedora e convidativa. Diferentemente da monumentalidade encontrada na Acrópole, Plaka revela a importância da escala humana na construção da identidade das cidades.
Uma das experiências mais marcantes que foi a visita ao Monte Likabetus, onde está a Capela Ortodoxa Agios Georgios (1870), e a torre sineira de pedra, o ponto mais elevado de Atenas.
Torre sineira em Monte Likabetus, Atenas 2024 (Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)
Do alto do monte, a cidade revela uma perspectiva completamente diferente. A vasta malha urbana se estende em todas as direções, tendo a Acrópole como principal referência visual. A partir desse ponto de observação, torna-se possível compreender a relação entre a topografia, a ocupação urbana e os monumentos que ajudaram a construir a identidade ateniense ao longo dos séculos. Observar Atenas a partir desse ponto permitiu compreender a cidade em sua totalidade. Da monumentalidade da Acrópole às ruas estreitas de Plaka, dos vestígios da Antiguidade à arquitetura contemporânea do Museu da Acrópole, tudo parecia integrar uma mesma narrativa urbana construída ao longo de milênios.
Em Atenas a arquitetura não se resume aos edifícios isolados. Ela se manifesta também na relação entre paisagem, cultura, memória e cidade.
MUSEU BENAKI
Visitamos em Atenas o Museu Benaki, uma das mais importantes instituições culturais da Grécia.
Arte Bizantina, Benaki Museum, Atenas 2024 (Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)O Benaki oferece uma verdadeira imersão pela história da arte e da cultura grega. Seu acervo reúne peças que percorrem diferentes períodos históricos, desde a Antiguidade até a era moderna, permitindo compreender a riqueza e a continuidade da produção artística do país. Uma das exposições temporárias que visitamos abordava o tema do Grand Tour, tradicional viagem realizada entre os séculos XVII e XIX por jovens aristocratas, intelectuais e estudiosos europeus como parte de sua formação cultural. A exposição apresentava pinturas, documentos e relatos relacionados a viajantes que encontraram na Grécia uma importante fonte de inspiração. Entre eles destacava-se Lord Byron, poeta romântico inglês profundamente ligado à história grega e defensor da independência do país, tematica que envolve a questão do Patrimonio cultural.
Benaki Museum, Atenas 2024 (Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)Outro aspecto interessante foi o extraordinário acervo de arte bizantina. Ícones religiosos, manuscritos, objetos litúrgicos e obras de grande riqueza artística revelam um período fundamental da história grega, demonstrando que a herança cultural do país vai muito além da Antiguidade Clássica.
Arte Bizantina, Benaki Museum, Atenas 2024 (Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)
No rooftop do Museu Benaki, observando a cidade iluminada pelos tons dourados do entardecer, foi impossível não refletir sobre tudo o que havia sido vivenciado. A Acrópole ao longe, os monumentos históricos, os museus, as ruas de Plaka e as paisagens observadas do alto do Monte Lykabetus pareciam compor uma única narrativa sobre arquitetura, arte, cultura e memória. Talvez não houvesse cenário mais apropriado para encerrar essa jornada por Atenas. Uma cidade onde diferentes períodos históricos convivem harmoniosamente e onde a arquitetura continua sendo uma das mais belas formas de compreender o passado e interpretar o presente.
Por dos sol as 21h no Rooftop do Benaki Museum, Atenas 2024
Atenas não impressiona apenas pela grandiosidade de seus monumentos, mas pela sensação de proximidade com a história. Em poucos lugares do mundo é possível perceber de forma tão clara a continuidade entre passado e presente. Caminhar por Atenas é caminhar por um capítulo fundamental da história da humanidade, onde arquitetura, arte, cultura e memória permanecem vivas, inspirando gerações há mais de dois mil anos.
ATENAS: CAMINHANDO PELAS ORIGENS DA ARQUITETURA
Marcilene Iervolino é Arquiteta e Urbanista, Doutoranda pela FAU-USP, Mestre em Políticas Públicas, MBA em Neurociência Aplicada à Arquitetura, Especialista em Arquitetura de Interiores, Meio Ambiente e História do Brasil (UEVA), além de docente nos cursos de Arquitetura e Urbanismo.


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