ATENAS: CAMINHANDO PELAS ORIGENS DA ARQUITETURA
SÉRIE: A ARQUITETURA QUE ENCONTREI PELO MUNDO - CAPÍTULO 2
Parthenon, Acrópole de Atenas, 2024 ((Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)
A visita a Atenas teve para mim um significado ainda mais especial. O ano de 2024 marcou também os 30 anos da minha formação em Arquitetura e Urbanismo, uma trajetória construída entre projetos, pesquisas, ensino e experiências que ampliaram meu olhar sobre as cidades e o patrimônio cultural.
Percorrer a Acrópole, caminhar por Plaka, visitar museus e contemplar a cidade a partir do Monte Lykabetus tornou-se, portanto, mais do que uma viagem. Foi um momento de reflexão sobre o próprio caminho percorrido ao longo dessas três décadas de atuação profissional.
Estar em Atenas, cidade que abriga algumas das mais importantes referências da história da arquitetura, foi uma oportunidade de reencontrar as origens de uma profissão que continua despertando em mim o mesmo encantamento de quando iniciei essa jornada.
A cada rua, praça, museu ou vestígio arqueológico, percebe-se a presença de uma herança cultural que atravessou séculos e continua influenciando a forma como pensamos a arte, a filosofia, a política e a arquitetura.
Para quem estuda e atua na área da arquitetura, a experiência torna-se ainda mais significativa. Estar diante da Acrópole, percorrer seus monumentos e observar a cidade contemporânea ao seu redor é compreender que muitos dos princípios que ainda orientam o projeto arquitetônico tiveram suas origens naquele território.
Antes de iniciar a subida em direção à Acrópole, uma parada na Praça Syntagma permitiu observar a tradicional troca da guarda em frente ao Parlamento Grego. Realizada pelos Evzones, integrantes da Guarda Presidencial Grega, a cerimônia preserva uma tradição nacional e representa um importante símbolo da identidade do país.
Antes de seguir em direção à Acrópole, visitamos o Estádio Panatenaico, um dos locais mais emblemáticos da história do esporte e da civilização grega.
Originalmente construído no século IV a.C. para sediar os Jogos Panatenaicos, o estádio foi posteriormente reconstruído em mármore durante o período romano. Sua importância histórica ultrapassa a Antiguidade, pois foi nesse local que aconteceram os primeiros Jogos Olímpicos da era moderna, em 1896. A imponência de sua estrutura impressiona não apenas pela escala, mas também pela simplicidade e clareza de sua composição arquitetônica. Totalmente revestido em mármore branco, o estádio preserva uma forte conexão com a tradição construtiva grega e permanece como um dos mais importantes símbolos da história olímpica.
Percorrer suas arquibancadas foi uma oportunidade de refletir sobre a permanência de valores que atravessaram séculos. Assim como os monumentos da Acrópole, o Estádio Panatenaico demonstra como determinadas realizações humanas conseguem transcender o tempo, mantendo-se relevantes para diferentes gerações.
A visita tornou-se ainda mais significativa por ocorrer em um período marcado pelas celebrações dos Jogos Olímpicos de Paris 2024, reforçando a conexão histórica entre a Grécia, berço dos Jogos Olímpicos, e um dos maiores eventos esportivos da atualidade.
Pouco a pouco, a Acrópole surge na paisagem urbana, dominando o horizonte da cidade. Elevada sobre um maciço rochoso, ela permanece como um dos mais importantes símbolos da civilização grega e da história da arquitetura.
Atenas 2024 (Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)
Ao alcançar seu topo, compreende-se que a Acrópole não é apenas um monumento, mas um conjunto arquitetônico extraordinário que reúne alguns dos mais importantes edifícios da Antiguidade.
O Parthenon, construído entre 447 e 432 a.C. em homenagem à deusa Atena, a principal referência da arquitetura clássica. Suas proporções cuidadosamente estudadas, o refinamento de seus detalhes construtivos e a monumentalidade de sua implantação explicam por que ele continua inspirando arquitetos em todo o mundo.
Parthenon, Atenas 2024 (Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)Próximo ao Parthenon encontra-se o Erecteion, construído entre 421 e 406 a.C., pertencente à ordem jônica. O templo é reconhecido mundialmente por seu famoso Pórtico das Cariátides, onde esculturas femininas substituem as colunas tradicionais, criando uma das composições mais elegantes da arquitetura grega.
Outro elemento iconico é o Odeon de Herodes Ático. Construído no século II d.C., o teatro demonstra a importância que os gregos atribuíam à integração entre arquitetura, arte e espaço público. Ainda hoje utilizado para apresentações culturais, o local mantém viva uma tradição iniciada há quase dois mil anos.
Odeon de Herodes Atico, Atenas 2024 (Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)Após percorrer a Acrópole, a visita continuou no Novo Museu da Acrópole, projetado pelo arquiteto Bernard Tschumi. Inaugurado em 2009, o edifício estabelece um interessante diálogo entre passado e presente.
Sua arquitetura contemporânea utiliza vidro, concreto e amplos espaços expositivos para valorizar as peças arqueológicas e, ao mesmo tempo, manter uma relação visual permanente com a própria Acrópole. Em diversos momentos do percurso, o visitante observa simultaneamente os vestígios históricos e o monumento original na paisagem, criando uma experiência única de conexão entre arquitetura, arqueologia e memória.
Museu Acropole, Atenas 2024 (Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)Museu Acropole, Atenas 2024 (Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)
Ao percorrer essas galerias, torna-se evidente que a história grega é composta por múltiplas camadas culturais, onde arte, arquitetura, religião e patrimônio dialogam continuamente. Após as visitas aos monumentos e museus, seguimos para o bairro de Plaka, considerado um dos mais antigos e charmosos de Atenas.
Localizado aos pés da Acrópole, o bairro preserva uma atmosfera singular, marcada por ruas estreitas, pequenas praças, escadarias, cafés e construções que revelam diferentes períodos da história da cidade. Caminhar por Plaka é descobrir uma Atenas mais próxima das pessoas, onde a arquitetura se manifesta não apenas nos grandes monumentos, mas também nos espaços cotidianos.
As edificações de baixa altura, as fachadas coloridas e a intensa ocupação dos espaços públicos criam uma paisagem urbana acolhedora e convidativa. Diferentemente da monumentalidade encontrada na Acrópole, Plaka revela a importância da escala humana na construção da identidade das cidades.
Também fomos a uma das experiências mais marcantes que foi a visita ao Monte Likabetus, onde está a Capela Ortodoxa Agios Georgios (1870), e a torre sineira de pedra, o ponto mais elevado de Atenas.
Torre sineira em Monte Likabetus, Atenas 2024 (Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)
Do alto do monte, a cidade revela uma perspectiva completamente diferente. A vasta malha urbana se estende em todas as direções, tendo a Acrópole como principal referência visual. A partir desse ponto de observação, torna-se possível compreender a relação entre a topografia, a ocupação urbana e os monumentos que ajudaram a construir a identidade ateniense ao longo dos séculos.
Observar Atenas a partir desse ponto permitiu compreender a cidade em sua totalidade. Da monumentalidade da Acrópole às ruas estreitas de Plaka, dos vestígios da Antiguidade à arquitetura contemporânea do Museu da Acrópole, tudo parecia integrar uma mesma narrativa urbana construída ao longo de milênios.
Talvez essa seja uma das maiores lições de Atenas: a arquitetura não se resume aos edifícios isolados. Ela se manifesta também na relação entre paisagem, cultura, memória e cidade.
Também visitamos em Atenas o Museu Benaki, uma das mais importantes instituições culturais da Grécia.
Arte Bizantina, Benaki Museum, Atenas 2024 (Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)Mais do que um museu, o Benaki oferece uma verdadeira viagem pela história da arte e da cultura grega. Seu acervo reúne peças que percorrem diferentes períodos históricos, desde a Antiguidade até a era moderna, permitindo compreender a riqueza e a continuidade da produção artística do país.
Uma das exposições temporárias que visitei abordava o tema do Grand Tour, tradicional viagem realizada entre os séculos XVII e XIX por jovens aristocratas, intelectuais e estudiosos europeus como parte de sua formação cultural.
A exposição apresentava pinturas, documentos e relatos relacionados a viajantes que encontraram na Grécia uma importante fonte de inspiração. Entre eles destacava-se Lord Byron, poeta romântico inglês profundamente ligado à história grega e defensor da independência do país, tematica que envolve a questão do Patrimonio cultural.
Benaki Museum, Atenas 2024 (Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)Outro aspecto interessante foi o extraordinário acervo de arte bizantina. Ícones religiosos, manuscritos, objetos litúrgicos e obras de grande riqueza artística revelam um período fundamental da história grega, demonstrando que a herança cultural do país vai muito além da Antiguidade Clássica.
Arte Bizantina, Benaki Museum, Atenas 2024 (Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)
Dali do rooftop do Museu Benaki, observando a cidade iluminada pelos tons dourados do entardecer, foi impossível não refletir sobre tudo o que havia sido vivenciado. A Acrópole ao longe, os monumentos históricos, os museus, as ruas de Plaka e as paisagens observadas do alto do Monte Lykabetus pareciam compor uma única narrativa sobre arquitetura, arte, cultura e memória.
Talvez não houvesse cenário mais apropriado para encerrar essa jornada por Atenas. Uma cidade onde diferentes períodos históricos convivem harmoniosamente e onde a arquitetura continua sendo uma das mais belas formas de compreender o passado e interpretar o presente.
Por dos sol as 21h no Rooftop do Benaki Museum, Atenas 2024
Atenas não impressiona apenas pela grandiosidade de seus monumentos, mas pela sensação de proximidade com a história. Em poucos lugares do mundo é possível perceber de forma tão clara a continuidade entre passado e presente.
Caminhar por Atenas é caminhar por um capítulo fundamental da história da humanidade, onde arquitetura, arte, cultura e memória permanecem vivas, inspirando gerações há mais de dois mil anos.
ATENAS: CAMINHANDO PELAS ORIGENS DA ARQUITETURA
Marcilene Iervolino é Arquiteta e Urbanista, Doutoranda pela FAU-USP, Mestre em Políticas Públicas, MBA em Neurociência Aplicada à Arquitetura, Especialista em Arquitetura de Interiores, Meio Ambiente e História do Brasil (UEVA), além de docente nos cursos de Arquitetura e Urbanismo.


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