🌿NEUROARQUITETURA | ESPAÇOS MAIS HUMANOS E SENSORIAIS

Neuroarquitetura: estratégias para criar espaços mais humanos e sensoriais

ESPAÇO DESCOMPRESSÃO EM EMPRESA. Clientes FLL (Projeto Marcilene R S Iervolino)

A arquitetura sempre influenciou a forma como vivemos, percebemos e experienciamos os espaços. No entanto, nas últimas décadas, estudos relacionados à neurociência passaram a demonstrar de maneira mais profunda como os ambientes construídos interferem diretamente nas emoções, no comportamento, na saúde e no bem-estar humano.

A neuroarquitetura surge justamente dessa aproximação entre arquitetura e neurociência, buscando compreender como o cérebro responde aos estímulos espaciais e como os ambientes podem contribuir para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Mais do que estética ou funcionalidade, a neuroarquitetura propõe espaços capazes de promover acolhimento, conforto, pertencimento, equilíbrio emocional e experiências sensoriais positivas.

O Espaço Descompressão tras um Ambiente acolhedor com iluminação natural e design biofílico aplicado.Clientes FLL (Projeto Marcilene Iervolino)

Entre os principais aspectos estudados pela neuroarquitetura estão a iluminação, os sons, as texturas, as cores, a escala dos espaços, a ventilação, a presença da natureza e os estímulos sensoriais proporcionados pelos ambientes. 

A iluminação natural, por exemplo, possui influência direta sobre o ciclo circadiano, regulando funções biológicas relacionadas ao sono, à disposição e ao equilíbrio emocional. Ambientes bem iluminados tendem a proporcionar maior sensação de conforto e bem-estar.

Da mesma forma, materiais naturais como madeira, pedra, fibras e tecidos despertam percepções táteis e emocionais que aproximam os indivíduos de experiências mais acolhedoras e humanas.

          Materiais e texturas que favorecem a humanização e sensorialidade. Sala, espaço descompressão em empresa,, Clientes FLL (Projeto Marcilene Iervolino)

A presença da vegetação também representa uma importante estratégia neuroarquitetônica. O contato com elementos naturais contribui para redução do estresse, melhora da concentração e fortalecimento da sensação de relaxamento e pertencimento.

Nesse contexto, o design biofílico torna-se um importante aliado na criação de ambientes mais saudáveis e emocionalmente equilibrados. Este estudo de caso que trago como  estratégia biofilica aplicada refere-se a um aEspaço de DEscompressão em Empresa (Clientes FLL).

Outro aspecto fundamental refere-se à percepção multissensorial dos espaços. O arquiteto e teórico finlandês Juhani Pallasmaa destaca que a arquitetura não deve ser compreendida apenas pela visão, mas através de todos os sentidos humanos.

Em sua obra Os Olhos da Pele, Pallasmaa critica a predominância excessiva da percepção visual na arquitetura contemporânea e propõe uma compreensão mais sensorial e fenomenológica dos espaços. Segundo o autor, a experiência arquitetônica envolve sons, texturas, temperatura, luz, sombras, cheiros e memórias corporais, capazes de construir vínculos emocionais profundos entre o indivíduo e o ambiente.

               Destaque para a Luz natural, materialidade rustica e vegetação integrados na Sala espaço descompressão da empresa. Clientes FLL (Projeto Marcilene Iervolino)

Entre as estratégias utilizadas no design biofílico e na neuroarquitetura, destaca-se o conceito de refúgioO refúgio corresponde à criação de espaços que proporcionam sensação de proteção, acolhimento e conforto emocional. São ambientes onde o indivíduo sente-se seguro, resguardado e conectado a uma experiência mais íntima e humana do espaço.

Na arquitetura, essa estratégia pode ser percebida em ambientes mais reservados, cantos de leitura, espaços com iluminação suave, mobiliários acolhedores, uso de materiais naturais, elementos orgânicos e áreas que favorecem contemplação e permanência.

A sensação de refúgio possui forte relação com aspectos biológicos e emocionais do comportamento humano. Ambientes que oferecem conforto visual, proteção e redução de estímulos excessivos tendem a promover relaxamento, bem-estar e diminuição do estresse.

Associado ao conceito de prospecto, relacionado à possibilidade de observar amplamente a paisagem ou o ambiente, o refúgio integra uma das estratégias mais importantes do design biofílico contemporâneo, buscando equilibrar segurança, percepção espacial e conexão com a natureza.

Outra estratégia importante refere-se à conexão visual com elementos naturais. A presença da vegetação, da água, da iluminação natural e das paisagens externas contribui para reduzir níveis de estresse e promover sensação de equilíbrio emocional.

A utilização de materiais naturais, texturas orgânicas e formas biomórficas também amplia a experiência sensorial dos ambientes, aproximando os espaços construídos das referências presentes na natureza.

Essas estratégias demonstram que a arquitetura contemporânea vem incorporando cada vez mais aspectos relacionados à percepção humana, ao bem-estar e à experiência emocional dos espaços.

O verde , a paleta e texturas se destacam e favorecem o Lay out humanizado da Sala, espaço descompressão da empresa.Clientes FLL (Projeto Marcilene Iervolino)

A escala humana também desempenha papel essencial na neuroarquitetura. Ambientes excessivamente rígidos, fechados ou impessoais podem gerar desconforto, ansiedade e sensação de afastamento. Já espaços mais acolhedores, equilibrados e conectados à natureza tendem a favorecer experiências mais positivas.

Hospitais, escolas, escritórios e residências têm incorporado cada vez mais estratégias neuroarquitetônicas com o objetivo de promover saúde física, emocional e cognitiva. 

Síntese: Conceitos aplicados que envolvem

🌿 refúgio
🌿 prospecto
🌿 conexão com a natureza
🌿 materialidade sensorial
🌿 luz e sombra

A organização espacial, o conforto acústico, a ventilação natural, a iluminação adequada e a criação de ambientes de descompressão tornam-se elementos fundamentais no desenvolvimento dos projetos contemporâneos.

Neste projeto apresentado, foi solicitado um Espaço para descanso dentro de uma empresa multinacional, o espaço existente ficava próximo ao refeitório da empresa, era apenas uma área sem conexão com os colaboradores, um vazio, apenas passavam por ali. 

Foi solicitado um novo uso para esse espaço, algo agradavel, humanizado, que trouxesse a questão da sensorialidade, um ESPAÇO MAIS HUMANO..E foi transformado o lugar em um espaço de "Refugio", uma lugar para a descompressão do dia a dia, foi criado o Espaço de Descompressão, a partir do briefing analisado e estudos realizados.

Área da empresa que foi destinada ao Espaço de Descompressão.  Cliente FLL (2023). 
(Projeto Marcilene Iervolino)

Área que foi transformando em Espaço de Descompressão, área interna (sala) fechamento em estrutura metalica anodizada preta, fechamento em vidro e área externa com recomposiação e paisagismo. . Cliente FLL (2023). (Projeto Marcilene Iervolino)

Luz, materialidade e vegetação integrados na Sala, espaço descompressão da empresa. Clientes FLL (Projeto Marcilene Iervolino)

Como foi projetado o "Espaço de Descompressão" (FLL)

No Briefing inicial abordamos itens necessários ao projeto: 

  • cantos acolhedores  
  • madeira,
  • luz natural,
  • vegetação,
  • sombras suaves,
  • espaços contemplativos,
  • texturas naturais,
  • arquitetura sensorial.
  • A partir destes itens selecionados, o design biofilico integrou todo o projeto, trazendo uma solução humanizada e de acordo com as premissas solicitadas. 

    Optamos pelo fechamento em estrutura metálica e vidro da parte já coberta, permitindo que as portas deslizassem podendo serem mantidas abertas ou fechadas. As mobílias escolhidas em tons cru com texturas agradaveis ao toque, sofá em algodão cru, com almofadas soltas, e poltrona em ratan e tecido cru, ao canto uma mesa em madeira com 6 cadeiras. Tapete em sisal sobre o piso cimenticio que recebeu um tratamento de polimento.

    Elementos do Design Biofílico Aplicados ao Projeto

    • Conexão Visual com a Natureza: A transição fluida entre o jardim externo e o ambiente interno (evidenciada nas imagens com grandes panos de vidro) reduz o estresse e aumenta o bem-estar mental.

    • Luz Dinâmica e Difusa: Como vimos nas imagens demonstradas  a variação de luz e sombra ao longo do dia imita o ritmo circadiano natural, o que ajuda a regular o sono e a energia dos ocupantes.

    • Materialidade Autêntica: O uso de madeira rústica, fibras naturais no tapete e o piso de cimento queimado trazem texturas que ativam o sentido do tato e remetem à terra.

    • Formas e Formas Biomórficas: A mesa de centro com bordas orgânicas (mantendo o desenho natural do tronco da árvore) e as poltronas de vime quebram as linhas rígidas e ortogonais da arquitetura tradicional.

    Descrição do Paisagismo aplicado

    O paisagismo foi o grande destaque neste projeto, aproveitamos que externamente havia terra, solo permeavel sem precidar quebrar pisos, e conseguimos trabalhar bem os jardins com árvores e especies´com floreiras e vasos, além dos paineis verdes internamente que trouxeram muita vida ao lugar..

    No Jardim Vertical (Parede Verde)

    • Monstera deliciosa (Costela-de-Adão): Traz as folhas largas e recortadas que dão volume e a textura tropical marcante ao painel.

    • Samambaias (Várias espécies): Foram usadas em massa para criar o efeito texturizado, leve e pendente, preenchendo os espaços entre as outras plantas.

    • Filodendros (como o Filendro-Cascata ou Guaimbé): Garantem diferentes tonalidades de verde e um caimento fluido na parede vertical.

    • Asplênio (Ninho-de-pássaro): Com suas folhas longas, lisas e verde-claras, ele cria pontos de contraste em meio à textura das samambaias.

    Plantas de Piso e Vasos Altos

    • Ficus lyrata (Figueira-lira): É a planta de destaque no vaso de barro ao lado da janela. Com seu porte arbóreo e folhas grandes que lembram uma lira, ela traz verticalidade e elegância para o espaço interno.

    • Peperômia-prostrata ou Corações-emaranhados (Vaso suspenso): Próximo à entrada da cozinha, criando um efeito de cascata delicado com folhas miúdas.

    • Espada-de-São-Jorge (Sansevieria): Disposta no aparador lateral, traz linhas verticais rígidas e escultóricas que contrastam com o mobiliário de madeira.

    No Jardim Externo (Visto pelas Grandes Janelas)

    • Acer Japonês (Maple): Aquela árvore de folhas miúdas e recortadas com tons que variam entre o verde-claro e o amarelo/alaranjado na transição para o exterior, trazendo uma estética oriental e sofisticada.

    • Samambaia-americana de grande porte: Forrando a transição do piso interno para o externo, criando um efeito de continuidade.

    • Hastes de Hortênsias ou Arbustos de Sombra: Ao fundo do jardim, preenchendo o subbosque com folhas volumosas e variações suaves de verde.

    Essas espécies são escolhas perfeitas para o design biofílico porque, além de purificarem o ar, criam uma rica estimulação sensorial através da variedade de formas e texturas das folhas.

    A Neuroarquitetura

    Mais do que construir edifícios, espaços, a neuroarquitetura propõe a criação de experiências espaciais capazes de influenciar positivamente a vida das pessoas.

    Ao compreender como o cérebro percebe os ambientes, a arquitetura amplia seu papel social e humano, tornando-se ferramenta importante na promoção do bem-estar, da saúde e da qualidade de vida.

    Como propõe Juhani Pallasmaa, talvez a verdadeira essência da arquitetura esteja justamente na capacidade dos espaços de despertar sensações, memórias e experiências humanas profundas.


    🧠 Arquitetura, percepção e experiência humana.

    Referencia: PALLASMAA, Juhani. Os olhos da pele: a arquitetura e os sentidos. Tradução de Alexandre Salvaterra. Porto Alegre: Bookman, 2011

    Marcilene Iervolino é Arquiteta e Urbanista, Doutoranda pela FAU-USP, Mestre em Políticas Públicas, MBA em Neurociência Aplicada à Arquitetura, Especialista em Arquitetura de Interiores, Meio Ambiente e História do Brasil (UEVA), além de docente nos cursos de Arquitetura e Urbanismo.

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