šŸŒSƉRIE: A ARQUITETURA QUE ENCONTREI PELO MUNDO | CAPITULO 1: PARIS

Torre Eiffel, Paris, 2024 (Fonte: Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)   

PARIS: ENTRE A MEMƓRIA E A TRANSFORMAƇƃO

Relembrando uma viagem a Paris em 1997, assim como ocorre com muitos admiradores da arquitetura, caminhar por suas ruas foi uma experiência marcante. A cidade impressionava pela monumentalidade de seus edifícios, pela harmonia urbana e pela forma como a história parecia presente em cada esquina, uma cidade mÔgica, um icone mundial.

Em 2024, ao caminhar novamente pela capital francesa, encontrei uma cidade que se preparava para receber os Jogos Olímpicos. Entre visitantes de diversas partes do mundo e uma atmosfera de celebração internacional, Paris revelava sua capacidade de se reinventar sem perder a identidade construída ao longo dos séculos.

Entre os primeiros locais escolhidos para revisitar estavam a Torre Eiffel, a região de Montmartre e a Place du Tertre. Cada um deles representa uma faceta distinta da cidade e ajuda a compreender por que Paris permanece como uma das maiores referências mundiais em arquitetura, urbanismo e patrimÓnio cultural.

MONTMARTRE

Em contraste com a monumentalidade da Torre Eiffel, Montmartre apresenta uma Paris mais intimista. Suas ruas sinuosas, escadarias e pequenas praças preservam uma atmosfera singular, marcada pela história, pela arte e pela vida cotidiana. Caminhar por esse bairro é descobrir uma escala urbana mais próxima das pessoas, onde arquitetura, cultura e paisagem se encontram de forma harmoniosa.

No coração de Montmartre encontra-se a Place du Tertre, espaƧo tradicionalmente ocupado por artistas e pintores. A praƧa mantĆ©m viva uma das caracterĆ­sticas mais marcantes do bairro: a relação entre arte e espaƧo pĆŗblico. Ali, o movimento dos visitantes, as obras expostas e a ocupação do espaƧo reforƧam a importĆ¢ncia da cultura na construção da identidade urbana parisiense. Ao percorrer esses lugares, percebi que Paris continua ensinando importantes liƧƵes sobre preservação, qualidade dos espaƧos pĆŗblicos e convivĆŖncia entre passado e presente. Uma cidade onde a memória nĆ£o Ć© apenas preservada, mas incorporada ao cotidiano, permitindo que a história permaneƧa viva enquanto novas transformaƧƵes acontecem.

 
Montmartre, Paris, 2024 
 (Fonte: Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)

Atualmente uma mudanƧa significativa na ocupação do espaƧo. Os restaurantes e cafĆ©s passaram a ocupar uma Ć”rea considerĆ”vel da praƧa, reduzindo a presenƧa dos artistas que historicamente caracterizavam o local. Embora a Place du Tertre continue preservando parte de sua vocação artĆ­stica, a crescente atividade turĆ­stica e comercial evidencia as transformaƧƵes que muitos espaƧos históricos enfrentam para conciliar preservação cultural, economia e uso contemporĆ¢neo. Ainda assim, a praƧa permanece como um importante sĆ­mbolo da vida artĆ­stica parisiense e um local onde a memória de grandes movimentos culturais continua presente na paisagem urbana.

Montmartre, Paris, 2024  (Fonte: Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)

LA TOUR EIFFEL

A Torre Eiffel continua sendo uma demonstração extraordinĆ”ria da uniĆ£o entre arquitetura e engenharia. Concebida para a Exposição Universal de 1889, sua estrutura metĆ”lica permanece surpreendente pela leveza, ousadia e capacidade de dialogar com a paisagem urbana. Um monumento que tornou-se um sĆ­mbolo da própria cidade. Com mais de 7 milhƵes de visitantes todos os anos, Ć© o monumento pago mais visitado do mundo. A Torre Eiffel estĆ” inscrita nos monumentos históricos desde 24 de junho de 1964 e Ć© patrimĆ“nio mundial da UNESCO desde 1991.

Coloquei aqui algumas imagens de outros anos estando em Paris, no topo da Torre Eiffel com fotos no mesmo lugar da Torre em 1997 e 2024. Ao observar essas duas imagens, separadas por quase três décadas, percebe-se não apenas a permanência de um dos maiores ícones da arquitetura mundial, mas também a capacidade que determinados lugares possuem de atravessar gerações, preservando seu significado e sua força simbólica.

 
No topo da Torre Eiffel, Paris em 1997.A torre marcava que faltavam 784 dias para o ano 2000 (Fonte: Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)

 
No topo da Torre Eiffel, Paris em 2024, o sĆ­mbolo das Olympics na torre
 (Fonte: Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)

POMPIDOU

Outro edifĆ­cio que sempre chamou minha atenção Ć© o Centro Cultural Pompidou. Inaugurado em 1977, arquitetura de Renzo Piano e Richard Rogers,  tambĆ©m se tornou um dos Ć­cones da arquitetura contemporĆ¢nea ao expor para o exterior elementos tradicionalmente ocultos, como tubulaƧƵes, estruturas e sistemas de circulação. Sua proposta inovadora rompeu paradigmas e transformou o edifĆ­cio em uma referĆŖncia mundial da arquitetura high-tech.

Durante minha visita em 2024, em meio aos preparativos e celebrações dos Jogos Olímpicos, o Pompidou apresentava uma imagem diferente daquela que tradicionalmente conhecemos. Sua extensa fachada funcionava como uma grande tela urbana, visível à kilometros de distância, exibindo projeções e elementos visuais relacionados ao evento, com muitas modalidades de esportes olímpicos. O edifício parecia dialogar com toda a cidade, transformando-se em um marco de comunicação e celebração coletiva.

Centro Georges Pompidou, Paris, a tela urbana para as Olympics de 2024                     
 (Fonte: Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)

Essa nova leitura reforçou uma característica importante da arquitetura contemporânea: a capacidade de adaptação e ressignificação dos espaços. O Centro Pompidou demonstrava como a arquitetura pode interagir com acontecimentos globais e participar ativamente da vida urbana.ObservÔ-lo inserido no contexto olímpico foi reafirmar sua identidade integrada a cidade de Paris.

Pont Neuf, Paris, Olympics de 2024 (Fonte: Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)

OLYMPICS

No dia da abertura das Olimpiadas, chegamos Ć  Pont Neuf, uma das pontes mais emblemĆ”ticas de Paris. Apesar do nome, que significa “Ponte Nova”, trata-se da ponte mais antiga ainda preservada sobre o Rio Sena. Sua presenƧa atravessa sĆ©culos de transformaƧƵes urbanas e continua integrando diferentes partes da cidade, mantendo-se como um importante marco da paisagem parisiense.

Durante os Jogos Olímpicos de 2024, a região adquiria uma atmosfera ainda mais especial. Entre a movimentação de visitantes, celebrações e intervenções urbanas relacionadas ao evento, foi possível avistar o grande balão olímpico que marcou a cerimÓnia de abertura dos Jogos. Elevando-se sobre a cidade, sua presença transformava o horizonte parisiense e criava uma imagem simbólica que conectava tradição e contemporaneidade.
A cena era particularmente significativa: de um lado, a histórica Pont Neuf, testemunha de sĆ©culos da história francesa; ao fundo, o balĆ£o olĆ­mpico, representando um acontecimento global e contemporĆ¢neo. Dois elementos separados pelo tempo, mas compartilhando a mesma paisagem urbana. As cerimĆ“nias de abertura dos Jogos OlĆ­mpicos de Paris 2024 que aconteceram ao longo do Rio Sena, e o icĆ“nico balĆ£o olĆ­mpico, a pira olĆ­mpica, tornou-se um dos sĆ­mbolos visuais mais marcantes do evento.

                                 Saint Germain des Pres, próximo a Pont Neuf, Paris, Olympics de 2024                                               (Fonte: Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)

Shakespeare and Company, Paris, 2024 (Fonte: Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)

Uma das características mais fascinantes de Paris: a capacidade de reunir memória e transformação em um mesmo cenÔrio. Uma cidade onde o passado permanece presente, enquanto novas histórias continuam sendo construídas.

Paris: entre a memória e a transformação. 

Entre monumentos centenÔrios, espaços culturais, ruas históricas e os acontecimentos que marcaram os Jogos Olímpicos de 2024, Paris reafirma sua capacidade de preservar o passado enquanto dialoga com o futuro. Uma cidade onde arquitetura, urbanismo, patrimÓnio e vida cotidiana se encontram, revelando que a verdadeira riqueza urbana estÔ na convivência entre permanência e mudança.

"We'll always have Paris". Rick Blane (H.Bogart) Casablanca,1942

Este texto inicia a sĆ©rie A Arquitetura que Encontrei pelo Mundo, um conjunto de reflexƵes sobre cidades, edifĆ­cios e paisagens observados durante minhas viagens. Nos próximos capĆ­tulos, o percurso seguirĆ” por Atenas, Mykonos, Lisboa, Porto, Recife, Paraty, Diamantina, explorando diferentes formas de compreender a arquitetura, a cultura e a identidade dos lugares.

Marcilene Iervolino é Arquiteta e Urbanista, Doutoranda pela FAU-USP, Mestre em Políticas Públicas, MBA em Neurociência Aplicada à Arquitetura, Especialista em Arquitetura de Interiores, Meio Ambiente e História do Brasil (UEVA), e docente nos cursos de Arquitetura e Urbanismo.

ComentƔrios

Postagens mais visitadas