PARIS: ENTRE A MEMÓRIA E A TRANSFORMAÇÃO

SÉRIE: A ARQUITETURA QUE ENCONTREI PELO MUNDO - CAPÍTULO 1

Torre Eiffel, Paris, 2024 (Fonte: Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)   

Minha primeira visita a Paris aconteceu em 1997. Como ocorre com muitos admiradores da arquitetura, caminhar por suas ruas foi uma experiência marcante. A cidade impressionava pela monumentalidade de seus edifícios, pela harmonia urbana e pela forma como a história parecia presente em cada esquina. 

Em 2024, ao caminhar novamente pela capital francesa, encontrei uma cidade que se preparava para receber os Jogos Olímpicos. Entre visitantes de diversas partes do mundo e uma atmosfera de celebração internacional, Paris revelava sua capacidade de se reinventar sem perder a identidade construída ao longo dos séculos.

Entre os primeiros locais escolhidos para revisitar estavam a Torre Eiffel, a região de Montmartre e a Place du Tertre. Cada um deles representa uma faceta distinta da cidade e ajuda a compreender por que Paris permanece como uma das maiores referências mundiais em arquitetura, urbanismo e patrimônio cultural.

A Torre Eiffel continua sendo uma demonstração extraordinária da união entre arquitetura e engenharia. Concebida para a Exposição Universal de 1889, sua estrutura metálica permanece surpreendente pela leveza, ousadia e capacidade de dialogar com a paisagem urbana. Mais do que um monumento, tornou-se um símbolo da própria cidade.

Em contraste com a monumentalidade da Torre Eiffel, Montmartre apresenta uma Paris mais intimista. Suas ruas sinuosas, escadarias e pequenas praças preservam uma atmosfera singular, marcada pela história, pela arte e pela vida cotidiana. Caminhar por esse bairro é descobrir uma escala urbana mais próxima das pessoas, onde arquitetura, cultura e paisagem se encontram de forma harmoniosa.

No coração de Montmartre encontra-se a Place du Tertre, espaço tradicionalmente ocupado por artistas e pintores. A praça mantém viva uma das características mais marcantes do bairro: a relação entre arte e espaço público. Ali, o movimento dos visitantes, as obras expostas e a ocupação do espaço reforçam a importância da cultura na construção da identidade urbana parisiense.

Ao percorrer esses lugares, percebi que Paris continua ensinando importantes lições sobre preservação, qualidade dos espaços públicos e convivência entre passado e presente. Uma cidade onde a memória não é apenas preservada, mas incorporada ao cotidiano, permitindo que a história permaneça viva enquanto novas transformações acontecem.

A Torre Eiffel continua sendo uma demonstração extraordinária da união entre arquitetura e engenharia. Concebida para a Exposição Universal de 1889, sua estrutura metálica permanece surpreendente pela leveza, ousadia e capacidade de dialogar com a paisagem urbana. Mais do que um monumento, tornou-se um símbolo da própria cidade.

 
No topo da Torre Eiffel, Paris em 1997.A torre marcava que faltavam 784 dias para o ano 2000 (Fonte: Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)

 
No topo da Torre Eiffel, Paris em 2024, o símbolo das Olympics na torre
 (Fonte: Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)

Ao observar essas duas imagens, separadas por quase três décadas, percebe-se não apenas a permanência de um dos maiores ícones da arquitetura mundial, mas também a capacidade que determinados lugares possuem de atravessar gerações, preservando seu significado e sua força simbólica.

Em contraste com a monumentalidade da Torre Eiffel, Montmartre apresenta uma Paris mais intimista. Suas ruas sinuosas, escadarias e pequenas praças preservam uma atmosfera singular, marcada pela história, pela arte e pela vida cotidiana. Caminhar por esse bairro é descobrir uma escala urbana mais próxima das pessoas, onde arquitetura, cultura e paisagem se encontram de forma harmoniosa.

No coração de Montmartre encontra-se a Place du Tertre. Conhecida mundialmente por sua tradição artística, a praça foi durante décadas um espaço marcado pela presença intensa de pintores e artistas que expunham e produziam suas obras ao ar livre, contribuindo para a identidade cultural do bairro.

 
Montmartre, Paris, 2024 
 (Fonte: Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)

Atualmente uma mudança significativa na ocupação do espaço. Os restaurantes e cafés passaram a ocupar uma área considerável da praça, reduzindo a presença dos artistas que historicamente caracterizavam o local. Embora a Place du Tertre continue preservando parte de sua vocação artística, a crescente atividade turística e comercial evidencia as transformações que muitos espaços históricos enfrentam para conciliar preservação cultural, economia e uso contemporâneo.

Ainda assim, a praça permanece como um importante símbolo da vida artística parisiense e um local onde a memória de grandes movimentos culturais continua presente na paisagem urbana.

Montmartre, Paris, 2024  (Fonte: Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)

Outro edifício que sempre chamou minha atenção é o Centro Cultural Pompidou. Inaugurado em 1977, arquitetura de Renzo Piano e Richard Rogers, tornou-se um dos ícones da arquitetura contemporânea ao expor para o exterior elementos tradicionalmente ocultos, como tubulações, estruturas e sistemas de circulação. Sua proposta inovadora rompeu paradigmas e transformou o edifício em uma referência mundial da arquitetura high-tech.

Durante minha visita em 2024, em meio aos preparativos e celebrações dos Jogos Olímpicos, o Pompidou apresentava uma imagem diferente daquela que tradicionalmente conhecemos. Sua extensa fachada funcionava como uma grande tela urbana, visível à distância, exibindo projeções e elementos visuais relacionados ao evento. O edifício parecia dialogar com toda a cidade, transformando-se em um marco de comunicação e celebração coletiva.

Centro Georges Pompidou, Paris, a tela urbana para as Olympics de 2024                     
 (Fonte: Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)

Essa nova leitura reforçou uma característica importante da arquitetura contemporânea: a capacidade de adaptação e ressignificação dos espaços. Mais do que abrigar atividades culturais, o Centro Pompidou demonstrava como a arquitetura pode interagir com acontecimentos globais e participar ativamente da vida urbana.

Observá-lo inserido no contexto olímpico foi perceber que alguns edifícios transcendem sua função original e tornam-se elementos vivos da paisagem e da identidade da cidade.

Pont Neuf, Paris, Olympics de 2024 (Fonte: Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)

No dia da abertura das Olimpiadas, chegamos à Pont Neuf, uma das pontes mais emblemáticas de Paris. Apesar do nome, que significa “Ponte Nova”, trata-se da ponte mais antiga ainda preservada sobre o Rio Sena. Sua presença atravessa séculos de transformações urbanas e continua integrando diferentes partes da cidade, mantendo-se como um importante marco da paisagem parisiense.
Durante os Jogos Olímpicos de 2024, a região adquiria uma atmosfera ainda mais especial. Entre a movimentação de visitantes, celebrações e intervenções urbanas relacionadas ao evento, foi possível avistar o grande balão olímpico que marcou a cerimônia de abertura dos Jogos. Elevando-se sobre a cidade, sua presença transformava o horizonte parisiense e criava uma imagem simbólica que conectava tradição e contemporaneidade.
A cena era particularmente significativa: de um lado, a histórica Pont Neuf, testemunha de séculos da história francesa; ao fundo, o balão olímpico, representando um acontecimento global e contemporâneo. Dois elementos separados pelo tempo, mas compartilhando a mesma paisagem urbana. As cerimônias de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris 2024 aconteceram ao longo do Rio Sena, e o icônico balão olímpico tornou-se um dos símbolos visuais mais marcantes do evento.

                                 Saint Germain des Pres, próximo a Pont Neuf, Paris, Olympics de 2024                                               (Fonte: Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)

Shakespeare and Company, Paris, 2024 (Fonte: Acervo pessoal de Marcilene R S Iervolino)

Talvez essa seja uma das características mais fascinantes de Paris: a capacidade de reunir memória e transformação em um mesmo cenário. Uma cidade onde o passado permanece presente, enquanto novas histórias continuam sendo construídas.

Paris: entre a memória e a transformação. 

Entre monumentos centenários, espaços culturais, ruas históricas e os acontecimentos que marcaram os Jogos Olímpicos de 2024, Paris reafirma sua capacidade de preservar o passado enquanto dialoga com o futuro. Uma cidade onde arquitetura, urbanismo, patrimônio e vida cotidiana se encontram, revelando que a verdadeira riqueza urbana está na convivência entre permanência e mudança.
Este texto integra a série A Arquitetura que Encontrei pelo Mundo, um conjunto de reflexões sobre cidades, edifícios e paisagens observados durante minhas viagens.
Nos próximos capítulos, o percurso seguirá por Atenas, Mykonos, Lisboa, Porto, Recife, Paraty, Diamantina, explorando diferentes formas de compreender a arquitetura, a cultura e a identidade dos lugares.

Marcilene Iervolino é Arquiteta e Urbanista, Doutoranda Arquitetura FAU USP, Mestre em Políticas Públicas, MBA em Neurociencia aplicada á arquitetura, Especialista em Arquitetura de Interiores,  Meio Ambiente,  História do Brasil (UEVA), Docente de Arquitetura e Urbanismo

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