CASA COMO ABRIGO | MEMÓRIA AFETIVA | TOPOFILIA
MEMÓRIA AFETIVA, CASA COMO ABRIGO, SENTIR O ESPAÇO
As memorias afetivas vão sendo criadas ao longo do tempo, cuidar com o sentimento de pertencimento é essencial para que os moradores não se sintam deslocados na casa. Investigar o repertório dos moradores, revisitar o passado, o vivido, as memórias, os hábitos, a cultura, vários elementos que compõem a relação deles com a moradia.
Ribeiro et al. (2015) cita que as memórias afetivas são como estratégias representativas para além da imagem e do texto, considerando outras percepções sensitivas como o olfato e o paladar. Podendo descrever assim sabores e aromas, o que demanda esforço de memória pessoal e de aprendizado, para recuperar as lembranças, passíveis de serem representadas e compartilhadas.
Cianciardi (2000) afirma que podemos distribuir as memórias humanas em três faixas, como uma pirâmide, no topo veríamos a primeira faixa relativa as memórias pessoais, que resgatam a historicidade do indivíduo, representando as lembranças pessoais e a ancestralidade de sua família; na faixa central relaciona-se as memórias do seu grupo social, que são os valores culturais que devem ser apreendidos e depois disseminados. Na faixa da base da pirâmide vamos encontrar a última faixa onde as nossas memórias primitivas ou inatas se localizam; onde estão a nossa herança genética, uma lembrança ancestral com a qual todos nós nascemos; memória de vivenciarmos a experiência da vida em grupo.
O ambiente acima (Figura 1), um living integrado á uma generosa área externa, com mesa de madeira, design biofílico, trás muito o conceito de uma casa praiana, mas fica em plena cidade, um lugar para relaxar, bater papo e ou mesmo almoços tranquilos aos finais de semana. Um lugar que abraça historias, espaços que guardam sentimentos e detalhes que despertam lembranças.
TOPOFILIA
Ferreira (2022) fala sobre a dimensão subjetiva de quem habita e experiencia uma residência. A moradia como afeto, lembranças e recordações, citando a morada que carregamos em nossas memórias significando que é bem mais uma construção de nossa subjetividade, do nosso mundo afetivo, dos nossos sonhos e fantasias, perfazendo uma casa concreta, com cores, texturas, cheiros e objetos.
Quando se fala da relação do morador com a moradia, cita-se a Topofilia, que significa a conexão sentimental com os espaços e lugares, a qual também pode ser utilizada como estratégia sensorial.
A Topofilia, a conexão sentimental com os espaços, lugares, possibilita
sentimentos de bem-estar, usando técnicas que remetam às origens dos moradores, de
uma cidade que morou, uma casa antiga da família, novamente a materialidade é revista,
exemplos como tons terrosos, tijolinhos, ladrilho hidráulico, palhinha ou mesmo macramê. Elementos que favoreçam ao toque, a visualização de boas recordações.
A arquitetura de interiores deve se importar muito mais com a conexão que esse morador estabelecerá com a casa, do que com as tendencias da contemporaneidade, é papel do arquiteto extrair essas histórias, essa memória, conectando-as com a casa.
Locais que transmutam, que trazem as boas lembranças a seus moradores, através de pequenos detalhes que dão muito destaque aos espaços.
IMPORTÂNCIA DA MATERIALIDADE
Quando falamos da Materialidade, sugerimos superfícies, revestimentos com texturas
diferenciadas, paredes e ou painéis que representem vivencias e respeitem a historicidade
da pessoa , projetos que mesclem os objetos que os clientes já possuam e os
que ainda irão adquirir, espaço para os pertences que tragam boas lembranças, como
uma louça que foi de sua mãe, um tapete de sua avó, ou mesmo texturas e revestimentos
que também relembrem locais de sua história pessoal, como um azulejo uma cerâmica de
alguma viagem ou passeio que gostou.
Esse dormitório (Figura 2), além dos tons off white, areia e amadeirados, o destaque também aparece nas texturas dos crochês da colcha de cama, do tapete que foi um presente de alguém querido, e que fazem tranquilamente a composição com os outros itens contemporaneos, como mantas, almofadas, sisal dos vasos, cortinas e as vegetações em ótimas proporções.
Criar ambientes com estratégias sensoriais, que estimulem os sentidos para seus
moradores. Relembrar bons momentos que são aguçados com o perfume dos alimentos,
com as receitas passadas de geração em geração pela família, um objeto que relembre uma
viagem maravilhosa, relembrar a historicidade da pessoa com imagens e materialidade,
aguçar a memória afetiva em todos os ambientes, trazendo aconchego e tornando o espaço
agradável.
A composição da cozinha abaixo (Figura 3), integra todo esse conceito de topofilia e memória afetiva que estabeleci para o projeto. A luz, os materiais naturais como as madeiras de demolição, pedras rusticas e a vista externa criam exatamente essa sensação de pertencimento ao lugar
Entender esses espaços da casa faz-se entender e voltar a ancestralidade, unir se em volta do fogo para além do alimento, compartilhar histórias, conquistas e sonhos, socializar ambientes que a partir da percepção multissensorial, permite analisar estes espaços promovendo a interação, respeitando os conceitos individuais permitindo uma aprimoração da experiencia dos moradores.
Aproveitando e inserindo a partir do briefing com o cliente, as sensações de ver, tocar, ouvir, sentir, cheirar na concepção projetual da arquitetura de interiores.
“Espaços que acolhem não são apenas vistos, são sentidos.”
Este artigo foi escrito durante uma pós graduação em Arquitetura de Interiores, que realizei em 2022 e depois foi publicado como um Capítulo do Livro: Arquitetura e urbanismo: cultura, tecnologia e impacto socioambiental 3, publicado em 27 de dezembro de 2023, caso queiram vê-lo por completo segue o link da Publicação: Capitulo sobre Arquitetura Sensorial.
Marcilene Iervolino é Arquiteta e Urbanista, Doutoranda em Arquitetura (FAU USP), MBA em Neurociencia aplicada á arquitetura. Especialista em Design de Interiores, Especialista em Meio Ambiente, Especialista em História do Brasil, Mestre em Políticas Públicas. Docente de Arquitetura e Urbanismo.





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